Guitarrismos

Aula de hoje: “To Pimp a Butterfly”

Daí que eu lancei um desafio de bobeira no Facebook pra galera. Eu abri uma votação/lista de sugestões de discos que eu nunca ouvi na vida. Eu me comprometo a ouvir um deles por semana e escrever aqui sobre o que eu aprendi com o disco, guitarristicamente falando.

Não é crítica – ao menos eu não vejo como – porque eu não sou crítico e o meu objetivo não é dizer se o disco X ou Y é bom ou ruim – as indicações dos meus amigos já fazem um filtro eficiente nesse sentido.

Isso posto, vamos ao primeiro disco, que pode ser ouvido aqui: “To Pimp a Butterfly”, do Kendrick Lamar (2015)

To Pimp a Butterfly
Eu quase nunca escuto hip hop. Só quando passa em algum programa de TV, ou naquelas TVs gigantes de bar onde só passa clipe de música pop, ou em algum vídeo que alguém linkou em algum post sobre preconceito racial. O último que eu ouvi, do Drake dançando no “Hotline Bling”, foi por conta de um meme.

Isso posto, eu confesso que fiquei bastante impressionado com o disco. É bem diferente do que eu (não) estou acostumado a ouvir. Manja esses raps em que o cara fala de quantas mulheres pegou e quanto dinheiro tem? Era algo que tinha bastante no rock antes dele virar um estilo corporativo/pseudofilosófico/mela cueca.

Então: o cara pega isso tudo e resolve metralhar pra todo lado. Manja tudo que tem de controverso na cultura do rap e do hip hop? Machismo, abuso de drogas, cultura de armas e violência, etc? Então, ele pega isso tudo e usa como porrete para dar uma surra nos aspectos fundamentalmente errados na cultura de branco.

Mas na real o que me impressionou foi a sonoridade: o Kendrick Lamar misturou jazz, soul e um monte de pirações musicais num disco que, se não lançou um estilo novo, foi por muito pouco.

É uma zona: tem compasso composto, falsete de desenho animado, gravação em que é só voz descendo a letra, improviso atonal, gig de jazz comendo enquanto ele desce a letra, baladinha soul-pop-lounge pra dançar e o escambau. Eu, no meu parco conhecimento de hip hop, diria que tá um trabalho bem completo.

É engraçado que a loucura sonora do disco contrasta com o teor das letras super bem escritas e da linha narrativa do disco. Fazia tempo que eu não ouvia algo tão sutilmente perturbador e nada óbvio. Me lembrou bastante os poucos discos de fusion que eu ouvi, que tem bastante coisa nessa pegada.

Se a gente for falar estritamente da guitarra no disco, elas tão presentes e bem tocadas, mas nada excepcional dentro dos arranjos – é um disco de hip hop, não podemos esquecer. Elas estão lá pra resolver, e o fazem de forma eficiente. Mas devo dizer que curti bastante o timbre limpo com a pitada de efeitos de modulação em “These Walls”.

Mas acho que a maior lição desse disco é sobre prosody, tomando o termo do Pat Patinson (que por sua vez tomou de Aristóteles): como as partes discretas se encaixam para fazer um todo coeso.

Sobre pontos de vista e nomes aos bois.

Num dos ensaios, o nosso maestro explicou que os tempos da salsa são todos bem defasados, quase fora do tempo. Menos nas convenções: nessa hora, é tudo na cabeça do tempo.

Ok, foi uma pith instruction dessas bem práticas pra resolver logo a vida do cristão. Mas eu fiquei depois me perguntando sobre aquilo.

Defasado em relação a que exatamente? Porque, do ponto de vista de uma salsa bem tocada, tava tudo no lugar. O jeito certo de fazer é esse.

O fato é que um dos problemas para se ensinar, aprender e explicar música está na forma como enxergamos a coisa toda.

Todo mundo que já passou por um conservatório qualquer que seja aprendeu que o tempo forte é sempre o primeiro tempo do compasso. Ali, na cabeça, pá, de forma resoluta e inabalável, sem qualquer dúvida.

Só que na vida real, na rua, nas gigs, a coisa não é assim – e se bobear, nem na sala de concerto é. O tempo, o timing da música raramente é essa convenção metronômica de tempos fortes nos começos de compasso. Aliás, a tendência é das coisas serem normalmente fluidas ao invés de rígidas.

Sobre muletas, barreiras e ferramentas

Ontem, antes do ensaio, o percussionista e a a cantora da banda tiveram uma dessas pequenas lavagens de roupa suja que sempre tem em banda.

Ela é uma cantora com formação de canto coral clássico. Cantou a vida inteira com uma partitura, sempre com um olho nas bolotas e outro no gesto do maestro.

Como ela veio de um outro background, de um outro mundo musical, ela frequentemente levava umas rasteiras da salsa – a levada é outra, a pegada, o som, o idioma, etc. O fato é que ela estava tendo uma enorme dificuldade em criar uma boa performance. E eu entendo o lado dela: ainda que o objetivo final da coisa toda seja o aprendizado, rola uma pontada de humilhação e frustração por se sentir incapaz de fazer algo que se esteja habituado a fazer – ainda que sair da zona de conforto seja exatamente o que nos faz aprender.

O percussa, macaco velho do estilo, mandou a real: aquila postura não iria adiantar muita coisa. Mesmo com a partitura em mãos, precisava memorizar a música o quanto antes, de cabo a rabo. Isso que implica em saber as convenções todas, as entradas e a como se situar com fluidez na música, sem travar.

Foram palavras bem duras, mas que revelavam o mundo real da salsa e das outras músicas populares: você precisa aprender como que aquele som funciona e precisa se virar ali dentro o quanto antes.

O primeiro grande obstáculo

Quase todo mundo que começa os estudos de música tem uma certa aversão à leitura e a tudo que vem por tabela: harmonia, análise, solfejo, ditados, etc. Normal: a gente quer se divertir e botar o bloco na rua, sem perder tempo com o que não é interessante e nem divertido.

Além disso, o começo é sempre doloroso: até a pessoa se familiarizar de verdade com aquilo, são alguns bons meses (ou anos) se habituando com aquilo. E cansa: é como aprender um idioma novo. Nas primeiras aulas, o esforço mental necessário para realizar aquilo é estafante.

E pra que se aborrecer quando podemos nos divertir, não é mesmo?

O segundo grande obstáculo

Depois que a gente começa a se habituar com a parafernália teórica – eu ia dizer partitura, mas pode botar aí as anotações, colas, enfim, qualquer coisa que não seja apenas memória – é muito difícil largar. É quase como se adquirissemos um vício nessas ferramentas.

Tudo aquilo que travava o nosso desenvolvimento passou a ser a nossa bengala. Isso é ótimo por um lado, pois significa que aprendemos a tirar proveito de algo que pode nos empurrar ainda mais para frente. Por outro lado, essa dependência acaba sendo o novo limitante, e a gente fica ainda mais perdido do que na época em que se virava só com o ouvido ou a memória.

É paradoxal, mas a gente fica inteligente num aspecto ficando burro em outro.

Seguindo o caminho para depois abandona-lo

O ideal é saber tirar proveito das ferramentas, sem criar dependencia. O ideal é que a gente seja capaz de tocar sem travar em hipótese alguma. Ainda que isso nem sempre seja possível, é aonde a gente tem que mirar.

Além de uma rotina intensa de estudo, isso também implica num preparo “espiritual” do músico – não num sentido religioso, mas de criar uma sabedoria sobre tudo aquilo que não é revelável só com teoria.

Se a parte teórica já é um oceano, essa parte então é uma profundeza abissal que ainda precisa ser investigada, estudada e catalogada

Equipamento faz diferença?

“Rafa, equipamento faz diferença?”

Faz e não faz.

Uma boa guitarra, bem construída e regulada, feita com boas peças e boa madeira, vai ter um som ótimo. Ok, o tipo de som pode variar de construção para construção – talvez aquele formato semi acústico não tenha aquele som de metal que você queira – ou pode ser que tenha sim. O ponto é que uma guitarra assim vai funcionar.

Só que tem um detalhe.

Um som é decorrente de várias causas juntas. Quando todas elas estão presentes, a música se manifesta. O instrumento é só uma das causas – eu diria que uma que nem é tão grande assim. Existem outras.

E dessas outras, uma é a pessoa que toca – sua habilidade, experiência, linguagem, pegada, etc.

Em geral as pessoas superdimensionam a importancia de um ou de outro, sem pensar na necessidade de se equilibrar os dois.

E se acontecesse uma fusão de academias e conservatórios?

O título parece louco para você? Afinal, o que diabos tem a ver tocar violão com levantar peso ou jogar bola? Ou qual seria a relação ente fazer parte do naipe de cellos de uma orquestra jovem e paraticar repetições de exercícios de kung-fu?

Nenhuma? São coisas diferentes?

Talvez. De fato, as aplicações de se aprender, digamos, a finalizar um oponente no jiu-jítsu não são as mesmas de se ajeitar a embocadura de um sax. As atividades finais e os objetivos finais são completamente diferentes.

Os processos, entretanto, não são tão diferentes assim.

Quando as pesquisas sobre atletas tem aplicação musical

Pesquisa voltada para práticas esportivas competitivas são um nicho importante e que sempre recebe incentivos, não exclusivamente financeiros. O motivo é óbvio: maior investimento implica em inovações e transformações na forma como se prepara e cuida de atletas. Por tabela, isso implica em maior número de recordes e títulos, e consequentemente mais dinheiro retornando para quem investe seriamente nesse tipo de espetáculo.

Aí, da-lhe de estudar biometria, psicologia esportiva, medicina preventiva, etc. O foco são os processos que se dão nos atletas enquanto treinam ou jogam. E esses processos físicos e mentais, apesar de serem diretivos e voltados para um determinado resultado de treino ou jogo, não ocorrem exclusivamente nessas circunstancias. As estratégias psicológicas para lidar com estresse e pressão em jogo podem funcionar para lidar com pressão e estresse em outros contextos.

É aí que a gente se beneficia.

Lógico, música não é esporte no sentido estrito do termo. Ainda assim, compartilha uma realidade comum com práticas esportivas. Estudar música dá trabalho e demanda um esforço físico e mental que varia de instrumento para instrumento, e de estilo para estilo. Não é à toa que, em muitas línguas, a palavra para tocar e jogar é a mesma.

O contrário também acontece, ainda que em menor grau. Estudar músicos tocando para se tentar chegar a alguma conclusão que possa ser útil ao treinamento de pessoas de maneira geral e atletas e particular (a própria pesquisa das 10k horas, do Pinker, foi nessa vibe). O motivo é quase sempre o interesse econômico: é muito mais fácil levantar fundos para uma pesquisa que possa beneficiar um time de futebol a ajudar bandas independentes.

Rigor científico

Talvez a maior vantagem para os músicos é que, aplicando um pouco de método e conhecimento científico, o estudo e a prática se tornam muito mais eficientes – fora que inovação dá uma revigorada naquelas práticas que a gente ja cansou de ver.

Normalmente, tendemos a um certo tradicionalismo ao aplicar métodos e caminhos que criaram gerações inteiras de músicos. Buscamos os autores e intérpretes consagrados, e devoramos as bíblias dos assuntos que nos interessam. No Brasil, isso é especialmente verdadeiro, visto que muita gente tem uma formação musical fora de instituições formais de ensino regular, mas com toda uma tradição por trás. Basta ver quem aprende a cantar em igreja ou quem frequenta quadra de escola de samba.

O problema é que, junto com o que funciona, vem um monte de coisas que não funciona. O violinista do século XIX que estudava para uma audição de orquestra viveu num mundo diferente do nosso. Ele fazia e ouvia uma música diferente, num contexto social e artístico que a gente nem tem como imaginar direito como foi. O que garante que aqueles métodos todos funcionem hoje da mesma forma que funcionaram ontem?

Ok. Onde posso aprender mais sobre isso?

Bom, existem alguns canais que podem te ajudar, além desse blog que você está lendo neste exato momento.

O Bulletproof Musician é um blog de music coaching, e recentemente tem falado quase que exclusivamente sobre isso.

O Jazzadvice segue uma linha parecida, com um pouco menos de ciência e mais coaching. Mas eles sempre tem um monte de métodos e propostas interessantes para os estudos.

E, é claro, os vídeos do TED, que são de encher os olhos.

Sobre como se preparar e fazer uma audição

Recentemente, fiz uma audição para participar de um grupo de salsa. Mesmo sendo uma prova, foi uma experiência muito bacana. Fazia tempo que eu não passava pela adrenalina de uma audição.

Salsa é um ritmo que eu nunca toquei na vida. Provavelmente eu já toquei algo parecido, mas nada que eu me lembre.

Por um lado, era a minha vaga que estava em jogo, o que já me deixava apreensivo e fazia a adrenalina jogar contra (sim, detesto perder). Por outro, essa mesma adrenalina foi o que me motivou a manter um estudo regular de instrumento e a me preparar para a prova, cortando o torpor habitual da rotina de estudo. Além disso, eu tive algumas surpresas na hora da audição, e acredito que o resultado positivo que obtive se deve, em parte, a ter reagido e jogado de acordo com o que rolava ali na hora.

Pensando nisso, resolvi escrever esse post, em forma de guia prático sobre como encarar audições. E por audição, entenda-se qualquer prova, teste, avaliação que você for fazer para qualquer coisa – teste para televisão, gig, THE de faculdade, THE de bolsa no exterior, etc.

1 – Tudo começa e termina na mente.

Toda audição é uma competição contra si mesmo, contra outros músicos ou ambos. É um momento delicado em que a gente se expõe ao pior tipo de ambiente controlado: aquele onde seremos julgados por músicos mais capazes e experientes. É a causa de muito choro na entrada e na saída das provas.

É natural que isso mexa com a gente. Sentir aquele nervoso básico e a adrenalina correndo nas veias faz parte do processo, e saber lidar com esse tipo de situação é fundamental. Dependendo, é até um ponto a ser avaliado, se o aluno tem stage fright (medo de palco) ou não.

A gente costuma estudar muitas escalas e arpejos, mas boa parte do treino é educar a nossa mente e o nosso lado emocional para lidar com esse tipo de situação desconfortável e propensa a sentimentos de aversão. Parte do treino é justamente sobre aprender a lidar com essa pressão numa boa.

2 – Destrinche o que é pedido e dedique um tempo necessário proporcional ao nível da prova

Toda audição tem um conteúdo a ser assimilado. Provas mais simples podem pedir uma canção de livre escolha do candidato, enquanto outras podem pedir peças inteiras ou vários excertos de várias peças importantes dentro do repertório do instrumento ou do grupo que você deseja integrar. Outras, como os vestibulares, tem um THE com um conteúdo programático específico descrito em um edital.

O ponto é simples: entenda o que é pedido e se planeje de acordo com o teor da prova. Isso implica em montar uma rotina de preparo e estudos realista, num intervalo de tempo proporcional ao que é pedido, alternando sessões de estudo e descanso. Uma prova simples pode pedir uma preparação de algumas semanas, enquanto que outras audições podem demandar um estudo focado por períodos de um ano ou mais.

Dependendo do nível da prova (e do seu nível), talvez você precise de um professor que te ajude a destrinchar o conteúdo de forma eficiente. Não dá pra perder tempo.

3 – Use a prova e a preparação da prova como método para desenvolver habilidades

Eu sei que é difícil ver o lado positivo nesse esforço todo, mas é importante olhar as coisas com bons olhos e tentar cultivar uma boa motivação para o estudo. Moral baixa afeta o rendimento do processo como um todo, e sobrecarrega os nervos que já estão sob estresse.

Além desse treino espiritual, aproveite para colocar em dia aqueles pontos da sua prática (ou teoria) que estão meio capengas.

Talvez esse seja o melhor espírito para se fazer uma prova – e pode botar aí na conta toda a preparação envolvida.

4 – Seja flexível

Aconteceu uma coisa engraçada na minha última audição.

A prova consistia numa entrevista seguida de uma peça de livre escolha que eu deveria tocar. Preferencialmente, algo dentro do repertório da gig (salsa, no caso), mas poderia ser de qualquer outro estilo.

Optei por tocar um arranjo meu da música “Stella by Starlight”, um standard classicão de jazz que todo guitarrista precisa aprender em algum momento da vida. Tecnicamente, é uma música bem completa – forma AABA com bons temas, tensões, harmonia complexa mas sem passar do ponto, o que permite fazer coisas bastante interessantes. E a peça ainda por cima é linda.

Fiquei umas boas semanas recuperando a forma das férias enquanto ia construindo um arranjo de chord melody bacana para ser apresentado. Queria causar uma boa impressão, afinal de contas.

Na hora da prova, o maestro apenas me passou um shuffle de salsa para acompanhar o resto da banda e depois me pediu para improvisar do nada sobre uns chorus. Assim, do nada. E lá estava eu, improvisando do nada numa música que eu jamais havia tocado na vida, tendo que me virar nos detalhes da levada da salsa.

Esteja preparado para o inesperado. Seja flexível

5 – Seja paciente

Fato: as chances de aprovação numa audição varia em função de uma série de fatores alheios ao nosso controle. Ainda que possamos controlar muitos deles, sempre há a chance de haver gente mais madura ou capaz fazendo a mesma prova. Quem faz prova para bolsa no exterior sabe o que eu to dizendo.

Essa pode não ser a sua vez. Bola pra frente e continue lutando o bom combate.

Paciência também é importante quando precisamos nos preparar para uma prova complexa por períodos longos de tempo. Aquele ano inteiro de curso de solfejo pode parecer sacal, mas vai fazer uma diferença absurda na sua vida.

6 – Saiba competir

Provas são competições para ver quem está mais apto segundo meia dúzia de critérios arbitrários decididos por alguém. Para cada aprovado na seleção comemorando a vaga, teremos cinco, dez, quinze, cinquenta almas que sairão da sala de prova sem um perspectiva muito melhor do que tentar outra vez ou tentar outra coisa.

Não é uma prática justa, meritocrática e nem inclusiva. Mas é o que tem pra hoje, e é nesse mundo que a gente precisa jogar.

Há quem exacerbe o espírito competitivo e veja qualquer pessoa disputando a mesma vaga como um adversário mortal. Outros optam pela via “pacífica”, e negam com todas as forças o embate no qual estão metidos.

A primeira postura é propensa a gerar inimizades – e, vai por mim, a última coisa que você quer é animosidade e antipatia no meio musical. É um meio em que pessoas dependem umas das outras o tempo todo. Nesse aspecto, é melhor usar a audição para fazer novas amizades ao invés de inimizades.

A segunda postura é propensa a fazer com que você sabote suas próprias habilidades. Se esconder não vai te ajudar em nada, e também pode priva-lo de mostrar para outros músicos as suas habilidades. O pacifismo forçado também é uma armadilha interpessoal.

A melhor forma de sair dessa sinuca é jogar o jogo da prova da forma mais honesta possível, tendo compaixão por você e pelas outras pessoas que estão na mesma situação. Basicamente, lutar o bom combate.

7 – Esteja em forma

O Dr. Noa, guru dos músicos, em um artigo recente falou da diferença do jogador de tenis casual e do profissional. Basicamente, o primeiro joga para treinar o corpo, e o segundo treina o corpo para jogar.

Com o músico não é diferente: a gente precisa estar em forma para tocar. Tirar um bom som depende disso. Precisão e pegada certa vem de muito treino muscular, alongamento e exercício. Parte do treino consiste em manter a forma, para as horas em que ela precisa ser posta à prova.

8 – Saiba a hora de parar

Foco, atenção, energia, músculos descansados, etc. são nomes bonitinhos para uma série de recursos limitados que temos.

Tocar cansa, e estudar cansa também. Ok, tudo isso é lindo e faz um bem danado a nós. Mas cansa, e saber a hora de se desengajar da prática é tão importante quanto saber manter um estudo focado e atento, justamente para que possamos recuperar a energia e o foco.

Emburacar numa rotina insana de estudos é contraproducente. O resultado é uma prática tecnicamente fraca e nervos em frangalhos.

O que eu tenho feito e tem funcionado lindamente comigo é manter pelo menos duas horas diárias de estudo, no esquema 50:10. Para cada cinquenta minutos de estudo, dez de descanso longe do instrumento. E em cada sessão, eu vou passando os pontos a serem estudados.

Obviamente, esses valores variam de pessoa para pessoa. Há quem prefira 30:30, ou 60:20, ou 40:20, ou estude segundo a vibe do momento. O importante é saber a hora de parar.

Descanse em paz, Dr. Sacks

Hoje é um dia triste para a ciência e para a música: faleceu o Dr. Oliver Sacks, um dos maiores especialistas em cérebro e consciência humana.

Ele foi o autor de um monte de livros sobre casos clínicos de pacientes com deficiências e desordens mentais. Ele usava essas histórias como ponto de partida para refletir sobre a condição dos seus pacientes em particular e sobre a condição humana de maneira geral. Poucas pessoas foram tão brilhantes e tão compassivas em seus campos de estudos como ele.

Ele era especialmente conhecido no meio musical pelo seu livro “Alucinações Musicais“, livro que trata de casos específicos do mundo da música. Ele cuidou de pessoas com deficiências neuroperceptivas variadas que afetavam sua experiência musical – desde de gente incapaz de diferenciar o ruído da rua de uma nota musical a savants autistas com poderes quase alienígenas, capazes de tirar de ouvido numa tacada só peças extensas com arranjos complexos e que se tornaram virtuosos em seus instrumentos em um intevalo bem pequeno de tempo.

Em fevereiro desse ano, ele escreveu sobre o seu cancer terminal e sobre a iminencia da própria morte. Possivelmente, uma das coisas mais lindas, tristes e lúcidas que eu já li sobre a morte e sobre a vida.

E hoje ela veio.

Descanse em paz, Dr. Sacks. Obrigado pelos insights, pela lucidez, pela sabedoria e pelo conhecimento. :’)

O que música, retórica, canções e videologs tem em comum?

Uma das coisas legais de estudar songwriting – ou composição de canções em PT-BR, embora eu sinta que não seja a mesma coisa – é que você passa a conhecer melhor a relação de três mundos aparentemente alienígenas entre si: o mundo da escrita, o mundo da fala e o mundo da música.

É importante conhecer esses três mundos. Na verdade eles são aspectos de um mesmo contínuo, que é a comunicação e a expressividade humana. Apesar de serem difentes, suas regras e processos se afetam mutuamente o tempo todo.

Colocando em termos práticos, entender melhor a escrita e a fala de um idioma vai te ajudar a te fazer um som melhor. Pode reparar: dificilmente um bom compositor ou intérprete é um ignorante da própria língua.

Diferenças entre escrita e fala

O fato é que, dependendo do meio, nós nos comunicamos de maneira diferente. Se eu tiver que escrever uma carta, por exemplo, a pegada do texto vai ser completamente diferente do que seria se fosse um email ou de um recado de whatsapp.

Essa diferença fica ainda maior se for comparada com a comunicação oral. Se eu tiver que te telefonar para tratar de qualquer assunto, a minha forma de comunicação vai mudar. Dentre outras coisas, eu sei que eu vou me repetir muitas vezes para que você compreenda e não esqueça o que eu estou falando. Coisa que, no texto, normalmente não acontece.

O que retórica e música tem em comum?

O professor de songwriting Pat Pattinson, em seu livro Writing Better Lyrics (e provavelmente em outros sobre o mesmo assunto) nos fala da importância das Power Positions, ou das posições de poder nas frases. Essas posições são os começos de frase e os pontos onde acentuamos e colocamos a tonicidade das palavras.

São os pontos que mais chamam a atenção, e é onde colocamos as palavras em destaque.

É um aspecto importante para quem escreve canções e textos a serem lidos publicamente. Normalmente, não é algo que um autor de prosa vá se preocupar. Mas um poeta com certeza o faria. Ou um ator. Ou um videologger. Ou um comediante standup. Ou um líder religioso. Ou um político. Na real, qualquer um que trabalhe com a voz precisa manjar, conscientemente ou não.

Não entendeu? Então vamos fazer um exercício simples: pegue a frase “Eu te amo” e repita ela em voz alta, colocando todo o seu peso, sua ênfase e sua energia em cada palavra. Repita uma vez colocando a enfase no “Eu”, depois no “te” e depois no “amo”.

Poder ir. Ninguém vai te julgar. =)

Então, teremos:

  • Eu te amo
  • Eu te amo
  • Eu te amo

Repare que é a mesma frase, mas com uma pegada completamente diferente. Cada uma passa uma ideia mais ou menos distinta dentro do campo semantico possível dessa frase. Tudo porque deslocamos suas posições de poder.

Da próxima vez que você for escrever uma música, ou gravar um vídeo na internet, ou fazer uma apresentação, preste atenção na maneira como você fala, e de que maneira você acentua ou esconde as palavras. A diferença entre alguém entender ou não a sua idéia (ou compra-la) pode estar aí.

Dois cents sobre percepção e treino de ouvido

“Playing by ear” is a phrase that I have trouble with — I don’t see any other way of playing. – Dave Douglas

“Tocar de ouvido” é uma frase com a qual eu tenho problemas – Eu não consigo ver outra maneira de tocar. O über trompetista Dave Douglas tem um ponto interessante. É meio louco isso de dizer que alguém toca ou não toca de ouvido. Não existe outra forma de tocar. Se os seus ouvidos não estão ligados enquanto você toca, então temos algo errado aí.

O ouvido é a primeira e última ferramenta do músico. Qualquer instrumento musical (e pode incluir a voz humana no pacote) é secundário. Ouvir claramente e de forma inteligível o que se faz é a condição básica para se tocar.

E eu não sei como dar mais enfase ao termo inteligível. O músico precisa ter uma clareza muito grande do que está acontendo. Quanto mais consciente, melhor. Não há espaço para o ouvir distraído, como quem deixa a TV ligada e vai fazer outra coisa.

“Ah, falar é fácil, Rafa. Mas percepção é difícil pacas.”

Concordo. E compartilho da sua dor.

O fato é que essa habilidade é muito sutil e razoavelmente complicada de usar. É quase um super-poder, que precisa de bastante treino para ser usada de forma inteligente. Domina-la é um trabalho de uma vida inteira.

Ao longo da minha caminhada musical, eu aprendi algumas coisinhas sobre percepção. Coisas que eu vou dividir com vocês agora

Ear training x Percepção

Os anglófonos tem um termo que eu que eu acho bem bacana para aquilo que tomamos como percepção musical: ear training, que se traduz como “treino de ouvido”.

Parece a mesma coisa, se pensarmos nos métodos existentes para fazer alguém aprender música. Mas há uma diferenca conceitual sutil entre “treino de ouvido” e “percepção”: o primeiro trata de um processo de refinamento de habilidade (treino) e o segundo de uma função cognitiva aparentemente óbvia, mas ultra complexa, que faz com que um fenômeno externo ao ouvinte provoque uma experiência psico-sensorial interna.

É bem complicado falar dessa experiência interna. Em última instância, é essa experiência que faz com que você perceba ou não perceba algo.

Este artigo do Dailymail UK, o autor explica como que determinadas sociedades e tribos não enxergam a cor azul, por um motivo simples e complexo ao mesmo tempo: eles não tem nem um nome e nem um conceito para azul. E como não fazem idéia do que é o azul, não podem enxerga-lo. O autor demonstra como a nossa percepção não está ligada apenas ao funcionamento correto dos nossos orgãos sensoriais.

“Rafa, mas então, se eu não tiver como conhecer algo previamente para poder percebe-lo(a), como diabos vou percebe-la pela primeira vez para que eu consiga entender e realizar aquilo?”

Esse é o paradoxo da percepção. O que acontece lá fora depende do que acontece aqui dentro e vice versa. E é por isso que é tão difícil domina-la.

Minha história pessoal

Quando eu comecei a estudar percepção, eu tinha uma dificuldade enorme em entender os acordes maiores e menores com sétima e as cadências. Eu também ficava sem chão quando o professor tocava acordes invertidos, principalmente na segunda inversão. Aquilo soava muito alienígena para mim.

O fato é que, a vida inteira, eu tinha ouvido basicamente rock. Quase nada de música erudita, jazz ou música brasileira até então. E no rock é muito raro você encontrar aquelas progressões e inversões típicas de aulas de percepção, naquele formatinho que sempre termina numa cadencia perfeita.

Eu estava acostumado a ouvir escalas modais, e achava muito estranho aqueles exercícios com tonalidades maiores e menores puras. Não soava como a música que eu ouvia.

Nunca que eu reconheceria uma cadência perfeita – aquela perfeitona mesmo, com movimento de quinta descendente no baixo e sensível indo a tônica no soprano (ou lead voice, para os jazzistas). Eu só ouvia cadencias modais e de blues, que funcionam de um jeito um pouco diferente – cadências que, na época, eu nem fazia idéia que eram cadências. Eu não conseguia decifrar aquilo que soava tão diferente das coisas que eu tinha ouvido a vida inteira.

Mas tinha vezes em que eu conseguia saber com precisão e clareza qual era o acorde e a melodia tocada, quando as notas batiam com alguma música que eu conhecia.

Meu ouvido foi mudando aos poucos, depois de bastante treino. Mas eu prefiro pensar que foi a minha mente que mudou, na real. O ouvido – ou aparelho auditivo, nesse caso – continua mais ou menos o mesmo, segundos os testes de audiometria

Foi muito tempo solfejando, escrevendo e transcrevendo coisas, lendo à primeira vista e mudando minha dieta musical. Passei a ouvir mais jazz, música brasileira, peças para orquestra, grupos vocais, etc. Tudo isso foi mudando a minha experiência para com a música, e por tabela a minha percepção.

É por essas e por outras que eu prefiro pensar o “treino de ouvido” e a “percepção” como coisas distintas, mas correlacionadas.

Está tudo na mente

A transformação na percepção é uma parte do processo gigante de transformação da mente do músico, de alguém alheio à música em um músico consciente do que acontece. Obvio, é um processo a ser refinado ao longo da vida inteira. Para mim, ele ainda não está completo (e eu gosto de pensar que nunca vai se completar, na real), mas está bem melhor do que em outros tempos.

Tá, eu faço o que então para me transformar num músico melhor?

Vamos lá:

  1. Aprenda a ter calma. Esse é o conselho mais importante de todos

    Repito: é o conselho mais importante de todos.

    O treino de ouvido e a percepção musical normalmente são aplicados sobre uma música que é tocada ao longo do tempo, com frases e progressões que mudam o tempo todo. Às vezes mais devagar, às vezes mais rapidamente, mas tudo muda o tempo todo. E para se ligar no que está acontecendo, no momento exato que está acontecendo, é preciso ter calma.

    Ansiedade, medo, a sensação de que não tem um ouvido bom o suficiente ou qualquer outra aflição mental desse tipo só atrapalha. É preciso estar relaxado para perceber o que há para ser percebido e examinar com mais calma determinados sons que não ficaram muito claros.

    Sem tranqüilidade, não há a menor possibilidade das coisas começarem a fazer sentido.

  2. Procure um bom professor ou uma boa aula de percepção. Ainda que você já saiba tirar (ou já tenha tirado) suas músicas favoritas de ouvido, o treino formal vai te expor a situações e sonoridades com as quais você não está acostumado. Educação formal é importante.

    A idéia é essa mesma: expor você ao que você não entende.

  3. Mantenha uma rotina de estudos regular. Mesmo que você não disponha de muito tempo para estudar, é importante praticar um pouco todos os dias. O importante é a regularidade
  4. E por rotina regular, entenda-se “longe das distrações”. O estudo é um trabalho mental. Se a sua mente não estiver totalmente engajada naquilo, o estudo não vai render.

    Isso significa se desligar de qualquer fonte de distração que você tenha por perto. Facebook, joguinhos, televisão,Whatsapp, etc.

  5. Tenha paciência: como eu disse, é um estudo para a vida inteira.

    Estudei durante dois anos fora da faculdade e dois anos dentro dela. Depois que eu me formei, ainda pratiquei nas épocas em que dava aula (e precisava transcrever coisas) e quando trabalhei na orquestra. Hoje eu voltei minha prática para o grupo de jazz no qual eu faço parte.

    Parece bastante tempo, mas não é nada. E eu ainda acho que preciso melhorar muito.

  6. Mesmo devagar, vá conferindo se você fez progressos ou não: justamente por se tratar de um processo lento, é preciso avalia-lo constantemente para não perder tempo e nem entusiasmo.

    Esse é outro bom motivo para procurar um professor, que poderá te dizer se você está de fato progredindo ou não.

  7. Transcreva solos e harmonias de vez em quando. É o famoso “tirar de ouvido”, só que escrito numa partitura ou cifra,
  8. Faça parte de um grupo, de preferencia que toque coisas em que você possa improvisar. Tocar com outras pessoas oferece a oportunidade única de ouvir as idéias musicais que se existem na cabeça das outras pessoas. Idéias de solos, licks, progressões, levadas, etc. Um bilhão de coisas que você talvez jamais tivesse pensado. E você também as brindará com suas idéias, que muito provavelmente nenhuma das outras pessoas da banda teria feito parecido.

    Você (e os outros) vão precisar se ligar no que os outros estão fazendo ali, na hora. Com todos os erros e eventuais rasteiras que uma pessoa de na outra. É a percepção aplicada ao vivo e em tempo real.

  9. Pratique de forma pouco óbvia. Isso vai te ajudar a criar confiança nas próprias habilidades.

    Sabe quando você está no elevador e ele começa a fazer aqueles sons? Tente tirar aquilo de ouvido como se fosse um exercício da aula de treino de ouvido. Ou quando você estiver no metrô e os anúncios começarem a soar.

    Você vai perceber que o mundo é mais musical do que você imagina

Coisas que você aprende quando está há quase um ano numa mini big band

1 – Ensaios de naipe são a coisa mais importante do mundo

2 – Um ensaio por semana é pouco

3 – Por outro lado, ensaios de cinco horas são um pouquinho demais

4 – Ter mais de um cantor (ou cantora) é bacana. Rola uma diferença de timbres e estilos, mesmo quando a galera canta dentro do mesmo estilo. Fora que tem músicas que escolhem alguns cantores e não outros, além de sempre ter gente pra fazer aquela abertura marota de vozes.

É o melhor dos dois mundos.

5 – O maestro manda. Mas o batera manda muito mais

6 – Saber montar um setlist bacana é uma arte que poucas pessoas dominam

7 – Sempre deixe a guitarra e o amp regulados para conseguir tirar um som razoavelmente forte. A galera com certeza vai reclamar enquanto você afina o instrumento e talz. Mas se você não fizer isso, o seu som vai desaparecer quando começar a pressão da batera, dos saxes e dos trompetes.

É melhor regular uma intensidade forte e ir tirando aos poucos do que fazer o contrário.

8 – Quando for aplicar o conselho acima, lembre-se de que todos os canais devem ter mais ou menos a mesma intensidade. Não faz sentido ligar o crunch para uma base e ele soar infinitamente mais forte que o resto da gig. A transição precisa ser similar em termos de volume, o que pode ser bastante complicado dependendo do equipamento.

A única excessão é quando um canal é usado só para solos: esse sim precisa estar sempre um pouco mais forte que o resto.

8 – Amp valvulado só presta quando tá quentinho.