Cadeias de pedais e o método de quatro cabos

por Rafa

Outro dia eu tava conversando com o meu irmão, que pro acaso trabalha com audio. Estávamos falando sobre pedaleiras e efeitos, e ele me perguntou se eu não sentia falta de alguma caixinha em específico, ou se eu não precisava de algum efeito maluco que ainda não existia.

Eu respondi que há milhões de efeitos no mercado que fazem coisas diversas e que eu não acho que consiga imaginar nada muito diferente do que já não tenha sido feito. Desde efeitos simples como um equalizador paramétrico ou um drive de dois botões até caixas que emulam o sinal de um diodo de germanio ligado numa pilha fraca, tem de tudo. Não há limites.

Convenhamos: a gente adora usar efeitos. Pode ser drive macio pra uma levada de blues, ou uma distorção pesada pra uma base de hard rock, ou leve “slapback echo” no pedal de delay e reverb só pra fazer uma graça. Normalmente a gente começa com uma ou duas caixinhas que amamos, mas não demora muito até o set de pedais começar a crescer e o número de botões pra girar ou apertar cresce exponencialmente. Isso também desperta a nossa curiosidade: começamos a experimentar diversos posicionamentos de efeitos na cadeia de pedais em busca do som perfeito.

Pode ser que encontremos o som perfeito para aquela música que estamos escrevendo ou para aquele arranjo que você vai gravar depois de amanhã. Mas pode ser que fiquemos horas mexendo em cabos e botões e tudo que conseguimos são sons bizarros ou que não nos agradem.

Arrumar um setup de pedais pode parecer rocket science, tentativa e erro pura e simples. Mas existe toda uma ciência por trás do posicionamento dos pedais.

Linhas gerais

Grosseiramente, existem três grandes tipos de efeitos: pedais de ganho (booster, distorção, drive e qualquer coisa que trabalhe amplificando o sinal do instrumento), filtros (que são qualquer pedal que funcione sobre faixas de frequencia – equalizadores, compressores, gates, etc) e efeitos de modulação (delays, reverbs, phasers, flangers, etc. – efeitos que funcionam a partir de um eco).

O que acontece é que a ordem dos efeitos altera o resultado sonoro final. Veja esse vídeo sobre os resultados sobre a mudança de posicionamento de um flanger.


Normalmente, o que se recomenda (leia-se: não é uma lei imutável escrita em pedra):

Ganho ===> Filtros ===> Modulações

O que se costuma fazer é colocar as distorções antes dos efeitos de modulação para evitar que o som fique “turvo” (ou “muddy”, como a galera anglófona gosta de chamar). Normalmente queremos um eco de som distorcido, e não uma reverberação sonora difusa pela distorção(a menos, obviamente, que esse seja o som que você procura. Quanto maior a cadeia de pedais e efeitos, maior o impacto do posicionamento dos pedais, principalmente se resolvemos ligar mais de uma modulação.

Filtro são um pouco mais flexíveis. Podem vir antes (compressores), no meio (equalizadores) ou bem no final (gates) após os efeitos de modulação.

Qual deles é o melhor? Depende. A priori, não existe maneira certa nem errada de se ligar pedais. O que existe é a maneira mais apropriada para o som que você quer construir. E saber posicionamento de pedais vai ter dar o controle necessário para garimpar o seu som.


Pré-amp

É aqui que a coisa complica um pouco.Como já foi dito em outros posts, o sinal da guitarra ligada num amplificador passa por três etapas:

  1. Etapa de pré-amplificação, na qual o sinal sofre um ganho. O objetivo é garantir que ele tenha uma boa relação sinal/ruído e, de quebra, colori-lo um pouco
  2. Etapa de equalização, na qual o sinal passa pelo circuito do amp onde se pode manipular a quantidade de agudos, graves, além de permitir o uso de algum efeito presente na caixa.
  3. Amplificação, na qual o sinal sofre novamente um ganho forte o bastante para mover os falantes das caixas.

Ora, o preamp é um circuito que opera dando ganho no sinal, que pode muito bem distorcer o som da sua guitarra (dependendo do pré, a idéia é essa mesmo). Assim sendo, talvez seja melhor ligar os efeitos de modulação (delay, reverb, etc.) depois do pre-amp, justamente para evitar que o som fique turvo.

Em cadeias simples, com um pedal de overdrive ligado em um delay numa caixa limpa, é bem provável que o som fique cristalino mesmo com essa disposição de pedais sem grandes problemas. Mas pra um set grande, com muitas caixinhas, as chances de se ligar tudo antes do pré sem bagunçar o som são bem baixas.

Loop de efeitos

Em caixas peguenas e cubinhos de estudo essa opção talvez não seja possível. Mas das caixas médias pra cima temos a opção de ligar os pedais nas entradas de loop de efeitos. Isso permite uma ligação entre o pré-amp (+ equalizadores) e o amplificador de potência.

Effects Loop
O nome dessas entradas costuma ser “Effects Send” e “Effects Return”, ou simplesmente “Send” e “Return”. Normalmente, vem escrito no amp a indicação de que é ali a entrada de loop de efeitos. O vídeo abaixo mostra como fazer quando se usa uma pedaleira, e o raciocínio é o mesmo quando se usa um bloco de pedais (você pode pular direto para 6:30 minutos para ver como são plugados os cabos)

Repare que não há obrigação alguma em se usar pedais de modulação após o pré. Nada impede que se faça o contrário, colocando a modulação na frente e as distorções depois. O método de quatro cabos é o que vai te dar essa flexibilidade de ligar coisas antes do amplificador de potência.

Qual o jeito certo?

Como sempre, a resposta vai variar em função da sua realidade, suas necessidades e daquilo que você deseja construir. Dependendo do som que você procura, a solução talvez seja justamente contrariar a regra e inverter a ordem dos pedais no sistema.

Tudo é uma questão de aprender como cada caixa funciona e qual o seu efeito na cadeia.

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