Calibrando a intensidade do sinal da guitarra

por Rafa

Daí que eu tava atrás de uns tutoriais e dicas pra minha pedaleira, e topei com esse vídeo aqui:

Pra quem não sabe inglês (ou não sabe sobre pedais, ou sobre sinal da guitarra de maneira geral) é um vídeo sobre como criar um patch que permite medir a intensidade do sinal do instrumento que entra na pedaleira. Assim é possível regular a intensidade do sinal, atenuando caso ele esteja muito forte ou dando ganho caso o sinal da guitarra esteja fraco demais. Assim ela sempre opera no nível ótimo.

Já tinha estudado um pouco sobre intensidade do sinal nos meus dias de aula de home studio, mas não imaginava que dava pra fazer algo tão simples e prático pra ver na hora se o seu som está calibrado ou não.

O fato é que, ao testar o patch, descobri que o sinal da guitarra estava descalibrado: os captadores geravam um sinal um pouco mais forte do que eu imaginava. Isso fazia com que a guitarra tivesse o som ligeiramente distorcido quando eu colocava os botões de volume no máximo. Nada que criasse problema quando eu tocava em timbres limpos. Mas isso gerava um som meio embolado e sujo em distorções altas.

(Nada contra sons sujos e embolaos, aliás, se o seu objetivo for esse mesmo e você souber o que está fazendo. O problema é quando o sistema distorce o sinal sem a gente saber ou querer.)

Resumo: intensidade e caminho do sinal

Antes de explicar porque a calibragem é importante, é preciso explicar o que é o sinal do instrumento e como ele funciona.

Qualquer instrumento com microfone ou captador funciona convertendo o som gerado pelo instrumento num sinal elétrico análogo. Assim, um som intenso vai gerar um sinal intenso, e um som fraco vai gerar um sinal fraco. As freqüências e amplitudes do som e seus harmonicos vão gerar um sinal com freqüências, amplitudes e harmônicos parecidos.

Esse sinal então é injetado na cadeia de equipamentos de som que vão transformar de volta o sinal elétrico em um som amplificado. A forma mais simples de fazer isso é com uma guitarra ligada por cabo a um amplificador, mas a lógica é a mesma para qualquer sistema grande de show envolvendo mesas, caixas e microfones: o objetivo é pegar o sinal do instrumento e transformar em som amplificado em caixas enormes de palco.

Sinal x Ruído

Acontece que não existem componentes eletrônicos perfeitos. Todo equipamento elétrico e eletrônico gera uma determinadada quantidade de ruído mínimo ao funcionar. Ainda que os equipamentos sejam novos e altíssima qualidade, SEMPRE vai ter algum ruído.

Para que o som do instrumento seja ouvido sem problemas é preciso que o seu sinal entre no circuito com intensidade o suficiente para cobrir o ruído de fundo. Normalmente é o pre-amp do amplificador (que é aonde a gente espeta a guitarra em 90% dos casos) já resolve.

É esse ganho do preamp que permite que se eleve o som do instrumento sem elevar por tabela todo o ruído de fundo.

Distorção

Só tem um detalhe: circuitos eletrônicos são construídos para aguentar uma determinada intensidade de sinal elétrico. Se o sinal vier numa intensidade superior à qual o equipamento aguenta, ele automaticamente “corta” (“clip”) o excesso de sinal com um limitador embutido, evitando sobrecarga e danos.

Esse corte do sinal é o que se costuma chamar de “resposta não linear” de um sistema, que nada mais é do que um nome técnico para a distorção do sinal de áudio que está “quente” (intenso) demais pro circuito operar. E é isso que os pedais de distorção fazem de forma controlada.

Calibragem

Aí a gente retorna à primeira aula de microfonação: para conseguir um bom som, a primeira coisa que se faz é injetar no sistema o sinal de áudio mais intenso possível antes de chegar no nível da distorção. Normalmente, em gravações, isso é feito nas mesas de som (ou computadores, se tiverem uma interface de audio) ajustando a intensidade do pre-amp do canal do instrumento.

Sobre amplificadores, pedais e pre-amps.

O que pouca gente sabe é que o amp de guitarra também tem um pre-amp.

Na real, qualquer caixa de guitarra tem pelo menos três etapas: uma de pre-amplificação (pre-amp, que é responsável justamente por elevar o sinal da guitarra), uma de equalização (aquela com os controles paramétricos de grave, médio, agudo e/ou efeitos) e a etapa final de amplificação, que como diz o próprio nome, deixa esse sinal intenso o bastante para que ele possa mover o falante da caixa e assim emitir som.

Ou seja, a guitarra é como se fosse uma mini mesa de som.

O problema é: dependendo da construção da guitarra e da caixa, é possível que o sinal já entre distorcido no próprio preamp da guitarra. Captadores de alto ganho ligados num preamp de alto ganho fatalmente vão gerar um sinal distorcido logo de cara – é facílimo de perceber, basta abrir os controles de volume no máximo e ver como a caixa opera.

Pode ser que seja esse o som que você busca, principalmente se tudo que você tem é uma guitarra ligada numa caixa. Pode ser que isso nem te incomode.

Mas e se você não quiser essa distorção da caixa? E se tudo que você quiser é um timbre limpo e com as caixas falando alto mas sem distorção? E se a distorção que você quer for a de algum pedal e você dependa de um sinal limpo injetado no circuito? E se você quiser usar um pedal de boost pro solo sem cagar a base? Ou então um filtro de envelope, que reage à intensidade com a qual o instrumento é tocado e que depende de um bom controle do sinal?

Essas escolhas todas precisam que o som do instrumento não saia de controle. Você resolve isso calibrando o instrumento.

Entram os captadores e os pedais

Novamente, isso pode nem ser um problema pra você. Se tudo que você tem é uma caixa e uma guitarra, você vai ter um timbre limpo e a guitarra vai funcionar de boa mesmo com os botões de volume aberto.

Mas caso você queira usar mais de uma guitarra numa mesma caixa em um show (coisa bastante comum) é possível que ela responda de forma diferente, já que guitarras tem captadores diferentes com níveis de ganho diferentes. A caixa pode ficar muito bem timbrada pra um instrumento mas não pra outro, tudo porque os captadores geram uma diferença de alguns decibéis a mais ou a menos.

As coisas ficam ainda mais complexas se você botar na conta os sets de pedais: dependendo da quantidade de caixinhas e de como elas estão dispostas, você pode ter um sinal super quente (que já vai entrar distorcido no canal do amp) ou até perda de sinal. E eu nem entrei no mérito dos efeitos ligados no loops de efeitos das caixas.

Quanto mais elementos vamos botando na cadeia, maiores as chances de tudo sair de controle. E isso só se resolve calibrando o instrumento.

Tirando o máximo dos seus equipamentos

Em termos práticos, se você tiver uma pedaleira ou um monte de pedais de efeito você tem uma mini mesa de som com muitos plugins capazes de emular cadeias inteiras de pedais e preamps famosos. Se o sinal não estiver ajeitadinho logo de cara, as chances dele ficar todo cagado no meio da cadeia são grandes, e ninguém quer isso.

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