Guitarrismos

Mês: fevereiro, 2016

Cadeias de pedais e o método de quatro cabos

Outro dia eu tava conversando com o meu irmão, que pro acaso trabalha com audio. Estávamos falando sobre pedaleiras e efeitos, e ele me perguntou se eu não sentia falta de alguma caixinha em específico, ou se eu não precisava de algum efeito maluco que ainda não existia.

Eu respondi que há milhões de efeitos no mercado que fazem coisas diversas e que eu não acho que consiga imaginar nada muito diferente do que já não tenha sido feito. Desde efeitos simples como um equalizador paramétrico ou um drive de dois botões até caixas que emulam o sinal de um diodo de germanio ligado numa pilha fraca, tem de tudo. Não há limites.

Convenhamos: a gente adora usar efeitos. Pode ser drive macio pra uma levada de blues, ou uma distorção pesada pra uma base de hard rock, ou leve “slapback echo” no pedal de delay e reverb só pra fazer uma graça. Normalmente a gente começa com uma ou duas caixinhas que amamos, mas não demora muito até o set de pedais começar a crescer e o número de botões pra girar ou apertar cresce exponencialmente. Isso também desperta a nossa curiosidade: começamos a experimentar diversos posicionamentos de efeitos na cadeia de pedais em busca do som perfeito.

Pode ser que encontremos o som perfeito para aquela música que estamos escrevendo ou para aquele arranjo que você vai gravar depois de amanhã. Mas pode ser que fiquemos horas mexendo em cabos e botões e tudo que conseguimos são sons bizarros ou que não nos agradem.

Arrumar um setup de pedais pode parecer rocket science, tentativa e erro pura e simples. Mas existe toda uma ciência por trás do posicionamento dos pedais.

Linhas gerais

Grosseiramente, existem três grandes tipos de efeitos: pedais de ganho (booster, distorção, drive e qualquer coisa que trabalhe amplificando o sinal do instrumento), filtros (que são qualquer pedal que funcione sobre faixas de frequencia – equalizadores, compressores, gates, etc) e efeitos de modulação (delays, reverbs, phasers, flangers, etc. – efeitos que funcionam a partir de um eco).

O que acontece é que a ordem dos efeitos altera o resultado sonoro final. Veja esse vídeo sobre os resultados sobre a mudança de posicionamento de um flanger.


Normalmente, o que se recomenda (leia-se: não é uma lei imutável escrita em pedra):

Ganho ===> Filtros ===> Modulações

O que se costuma fazer é colocar as distorções antes dos efeitos de modulação para evitar que o som fique “turvo” (ou “muddy”, como a galera anglófona gosta de chamar). Normalmente queremos um eco de som distorcido, e não uma reverberação sonora difusa pela distorção(a menos, obviamente, que esse seja o som que você procura. Quanto maior a cadeia de pedais e efeitos, maior o impacto do posicionamento dos pedais, principalmente se resolvemos ligar mais de uma modulação.

Filtro são um pouco mais flexíveis. Podem vir antes (compressores), no meio (equalizadores) ou bem no final (gates) após os efeitos de modulação.

Qual deles é o melhor? Depende. A priori, não existe maneira certa nem errada de se ligar pedais. O que existe é a maneira mais apropriada para o som que você quer construir. E saber posicionamento de pedais vai ter dar o controle necessário para garimpar o seu som.


Pré-amp

É aqui que a coisa complica um pouco.Como já foi dito em outros posts, o sinal da guitarra ligada num amplificador passa por três etapas:

  1. Etapa de pré-amplificação, na qual o sinal sofre um ganho. O objetivo é garantir que ele tenha uma boa relação sinal/ruído e, de quebra, colori-lo um pouco
  2. Etapa de equalização, na qual o sinal passa pelo circuito do amp onde se pode manipular a quantidade de agudos, graves, além de permitir o uso de algum efeito presente na caixa.
  3. Amplificação, na qual o sinal sofre novamente um ganho forte o bastante para mover os falantes das caixas.

Ora, o preamp é um circuito que opera dando ganho no sinal, que pode muito bem distorcer o som da sua guitarra (dependendo do pré, a idéia é essa mesmo). Assim sendo, talvez seja melhor ligar os efeitos de modulação (delay, reverb, etc.) depois do pre-amp, justamente para evitar que o som fique turvo.

Em cadeias simples, com um pedal de overdrive ligado em um delay numa caixa limpa, é bem provável que o som fique cristalino mesmo com essa disposição de pedais sem grandes problemas. Mas pra um set grande, com muitas caixinhas, as chances de se ligar tudo antes do pré sem bagunçar o som são bem baixas.

Loop de efeitos

Em caixas peguenas e cubinhos de estudo essa opção talvez não seja possível. Mas das caixas médias pra cima temos a opção de ligar os pedais nas entradas de loop de efeitos. Isso permite uma ligação entre o pré-amp (+ equalizadores) e o amplificador de potência.

Effects Loop
O nome dessas entradas costuma ser “Effects Send” e “Effects Return”, ou simplesmente “Send” e “Return”. Normalmente, vem escrito no amp a indicação de que é ali a entrada de loop de efeitos. O vídeo abaixo mostra como fazer quando se usa uma pedaleira, e o raciocínio é o mesmo quando se usa um bloco de pedais (você pode pular direto para 6:30 minutos para ver como são plugados os cabos)

Repare que não há obrigação alguma em se usar pedais de modulação após o pré. Nada impede que se faça o contrário, colocando a modulação na frente e as distorções depois. O método de quatro cabos é o que vai te dar essa flexibilidade de ligar coisas antes do amplificador de potência.

Qual o jeito certo?

Como sempre, a resposta vai variar em função da sua realidade, suas necessidades e daquilo que você deseja construir. Dependendo do som que você procura, a solução talvez seja justamente contrariar a regra e inverter a ordem dos pedais no sistema.

Tudo é uma questão de aprender como cada caixa funciona e qual o seu efeito na cadeia.

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Tipos de captador

Meu texto anterior rendeu algumas perguntas sobre tipos de captador.

Dei uma olhada em algumas fontes bem bacanas sobre captadores de guitarra (aquiaqui e aqui, tudo em inglês) e cheguei à algumas conclusões interessantes.

– Ganho é algo relativo. Captadores single coil costumam gerar (mas nem sempre) algo em torno de 100 mV e humbuckers comuns algo em torno de 500 mV (mas nem sempre). Gosto de pensar que até uns 15o mV é baixo, e daí até uns 600 é medio. Daí pra cima é alto ganho – mas novamente, isso é um ponto em aberto.

Esses captadores de ganho baixo e médio são bastante versáteis e não distorcem tão facilmente. Por outro lado, geram sinais não tão intensos, que podem se perder em cadeias muito longas de pedais e racks de efeitos.

– Captadores ativos – isso é, com baterias embutidas – costumam gerar 1 V ou mais. São considerados captadores de altíssimo ganho e possuem voltagens impossíveis de serem geradas somente por captação passiva, sem bateria nem nada (que é o que 90% das guitarras tem).

A vantagem desses captadores é que eles naturalmente geram um sinal suficientemente forte em relação ao ruído natural da guitarra. A desvantagem é que eles tendem a distorcer mais facilmente. Ah, e as baterias, que tem que ser trocadas de tempos em tempos.

– Em termos práticos, não dá pra dizer qual deles é melhor. Cada um tem vantagens para uma aplicação e desvantagens para outra. O que dá pra fazer é escolher o tipo de captador que se gosta mais.

– Por outro lado, é muito útil saber qual o tipo de captador do seu instrumento, pois facilita na hora de calibrar (ou descalibrar) o set de equipamentos.

– A regra do tamanho do instrumento vale para captadores: quanto maior o tamanho e a voltagem, mais gordo e grave é o seu timbre. O mesmo se aplica ao número de bobinas: captadores simples tendem (mas nem sempre) a ser mais brilhantes e ter mais harmônicos agudos, enquanto que os de bobina dupla tendem (mas nem sempre) a ter um som mais encorpado, com ressonancia de médios e gravas.

Aliás, a quantidade de voltas do fio de cobre que envolve as bobinas também afeta o timbre do captador, e segue a mesma lógica: mais voltas e fios mais grossos tendem ao grave, e menos voltas com fios mais finos ao agudo.

– O timbre do captador também é dado pela sua construção e pela composição de suas partes: captadores de Alnico (liga de alumínio, níquel e cobalto) tem um determinado som, que é diferente de captadores de ceramica ou aço, por exemplo. Tudo isso interfere nas regiões de graves, médios e agudos e em quais delas o captador brilha mais ou menos.

– O ganho do captador interfere na resposta do instrumento ao toque. Captadores de baixo ganho são como microfones duros, enquanto que os de alto ganho (principalmente os ativos) são como microfones condensadores, super sensíveis ao toque.

Qual deles é melhor? Depende do tipo de som que você quer fazer.

Um ponto a ser considerado é que eles por si só não resolvem o timbre do instrumento. Tipo de madeira, construção (se o braço é colado ou encaixado), a forma como a parte elétrica é construída, o tipo de potenciômetro, o tipo de encordamento, se a guitarra é de seis ou sete cordas, se o captador está na ponte ou no braço, o tipo de afinação do instrumento, etc: tudo isso afeta o resultado final do som do instrumento.  Por exemplo, há quem prefira captadores brilhantes instalados numa guitarra de ash, que é naturalmente brilhante, com o objetivo de reforçar esses harmônicos. Ou então há quem resolva contrabalançar a madeira do instrumento, instalando um single coil em uma guitarra de mogno, por exemplo. Tudo é possível, e varia de acordo com o gosto do freguês.

Cada captador, independente do ganho, tem seu colorido próprio. Um modelo específico pode ter graves gordos e agudos estridentes e uma leve queda nos médios, enquanto outro que tem um colorido mais ou menos equilibrado em todo o espectro de freqüências.

Captadores de alto ganho nem sempre significam som distorcido: muitos jazzistas de som limpo curtem esse estilo de captação justamente porque eles de cara ela resolve o problema da relação de sinal/ruído da guitarra.

O mesmo se aplica a captadores de baixo ganho, que entram com um sinal limpo a ser distorcido por algum pedal ou pelas caixas. Jimi Hendrix, Slash, Yngwie Malmsteen, todos esses fazem sons pesados e incrivelmente distorcidos com captadores vintage de baixo ganho.

Qual deles é melhor? Impossível saber. Mas dá pra saber quais a gente gosta mais e menos. Ainda assim, o mais importante é conhecer o tipo de captação da guitarra e saber como tirar o máximo proveito dela.

Calibrando a intensidade do sinal da guitarra

Daí que eu tava atrás de uns tutoriais e dicas pra minha pedaleira, e topei com esse vídeo aqui:

Pra quem não sabe inglês (ou não sabe sobre pedais, ou sobre sinal da guitarra de maneira geral) é um vídeo sobre como criar um patch que permite medir a intensidade do sinal do instrumento que entra na pedaleira. Assim é possível regular a intensidade do sinal, atenuando caso ele esteja muito forte ou dando ganho caso o sinal da guitarra esteja fraco demais. Assim ela sempre opera no nível ótimo.

Já tinha estudado um pouco sobre intensidade do sinal nos meus dias de aula de home studio, mas não imaginava que dava pra fazer algo tão simples e prático pra ver na hora se o seu som está calibrado ou não.

O fato é que, ao testar o patch, descobri que o sinal da guitarra estava descalibrado: os captadores geravam um sinal um pouco mais forte do que eu imaginava. Isso fazia com que a guitarra tivesse o som ligeiramente distorcido quando eu colocava os botões de volume no máximo. Nada que criasse problema quando eu tocava em timbres limpos. Mas isso gerava um som meio embolado e sujo em distorções altas.

(Nada contra sons sujos e embolaos, aliás, se o seu objetivo for esse mesmo e você souber o que está fazendo. O problema é quando o sistema distorce o sinal sem a gente saber ou querer.)

Resumo: intensidade e caminho do sinal

Antes de explicar porque a calibragem é importante, é preciso explicar o que é o sinal do instrumento e como ele funciona.

Qualquer instrumento com microfone ou captador funciona convertendo o som gerado pelo instrumento num sinal elétrico análogo. Assim, um som intenso vai gerar um sinal intenso, e um som fraco vai gerar um sinal fraco. As freqüências e amplitudes do som e seus harmonicos vão gerar um sinal com freqüências, amplitudes e harmônicos parecidos.

Esse sinal então é injetado na cadeia de equipamentos de som que vão transformar de volta o sinal elétrico em um som amplificado. A forma mais simples de fazer isso é com uma guitarra ligada por cabo a um amplificador, mas a lógica é a mesma para qualquer sistema grande de show envolvendo mesas, caixas e microfones: o objetivo é pegar o sinal do instrumento e transformar em som amplificado em caixas enormes de palco.

Sinal x Ruído

Acontece que não existem componentes eletrônicos perfeitos. Todo equipamento elétrico e eletrônico gera uma determinadada quantidade de ruído mínimo ao funcionar. Ainda que os equipamentos sejam novos e altíssima qualidade, SEMPRE vai ter algum ruído.

Para que o som do instrumento seja ouvido sem problemas é preciso que o seu sinal entre no circuito com intensidade o suficiente para cobrir o ruído de fundo. Normalmente é o pre-amp do amplificador (que é aonde a gente espeta a guitarra em 90% dos casos) já resolve.

É esse ganho do preamp que permite que se eleve o som do instrumento sem elevar por tabela todo o ruído de fundo.

Distorção

Só tem um detalhe: circuitos eletrônicos são construídos para aguentar uma determinada intensidade de sinal elétrico. Se o sinal vier numa intensidade superior à qual o equipamento aguenta, ele automaticamente “corta” (“clip”) o excesso de sinal com um limitador embutido, evitando sobrecarga e danos.

Esse corte do sinal é o que se costuma chamar de “resposta não linear” de um sistema, que nada mais é do que um nome técnico para a distorção do sinal de áudio que está “quente” (intenso) demais pro circuito operar. E é isso que os pedais de distorção fazem de forma controlada.

Calibragem

Aí a gente retorna à primeira aula de microfonação: para conseguir um bom som, a primeira coisa que se faz é injetar no sistema o sinal de áudio mais intenso possível antes de chegar no nível da distorção. Normalmente, em gravações, isso é feito nas mesas de som (ou computadores, se tiverem uma interface de audio) ajustando a intensidade do pre-amp do canal do instrumento.

Sobre amplificadores, pedais e pre-amps.

O que pouca gente sabe é que o amp de guitarra também tem um pre-amp.

Na real, qualquer caixa de guitarra tem pelo menos três etapas: uma de pre-amplificação (pre-amp, que é responsável justamente por elevar o sinal da guitarra), uma de equalização (aquela com os controles paramétricos de grave, médio, agudo e/ou efeitos) e a etapa final de amplificação, que como diz o próprio nome, deixa esse sinal intenso o bastante para que ele possa mover o falante da caixa e assim emitir som.

Ou seja, a guitarra é como se fosse uma mini mesa de som.

O problema é: dependendo da construção da guitarra e da caixa, é possível que o sinal já entre distorcido no próprio preamp da guitarra. Captadores de alto ganho ligados num preamp de alto ganho fatalmente vão gerar um sinal distorcido logo de cara – é facílimo de perceber, basta abrir os controles de volume no máximo e ver como a caixa opera.

Pode ser que seja esse o som que você busca, principalmente se tudo que você tem é uma guitarra ligada numa caixa. Pode ser que isso nem te incomode.

Mas e se você não quiser essa distorção da caixa? E se tudo que você quiser é um timbre limpo e com as caixas falando alto mas sem distorção? E se a distorção que você quer for a de algum pedal e você dependa de um sinal limpo injetado no circuito? E se você quiser usar um pedal de boost pro solo sem cagar a base? Ou então um filtro de envelope, que reage à intensidade com a qual o instrumento é tocado e que depende de um bom controle do sinal?

Essas escolhas todas precisam que o som do instrumento não saia de controle. Você resolve isso calibrando o instrumento.

Entram os captadores e os pedais

Novamente, isso pode nem ser um problema pra você. Se tudo que você tem é uma caixa e uma guitarra, você vai ter um timbre limpo e a guitarra vai funcionar de boa mesmo com os botões de volume aberto.

Mas caso você queira usar mais de uma guitarra numa mesma caixa em um show (coisa bastante comum) é possível que ela responda de forma diferente, já que guitarras tem captadores diferentes com níveis de ganho diferentes. A caixa pode ficar muito bem timbrada pra um instrumento mas não pra outro, tudo porque os captadores geram uma diferença de alguns decibéis a mais ou a menos.

As coisas ficam ainda mais complexas se você botar na conta os sets de pedais: dependendo da quantidade de caixinhas e de como elas estão dispostas, você pode ter um sinal super quente (que já vai entrar distorcido no canal do amp) ou até perda de sinal. E eu nem entrei no mérito dos efeitos ligados no loops de efeitos das caixas.

Quanto mais elementos vamos botando na cadeia, maiores as chances de tudo sair de controle. E isso só se resolve calibrando o instrumento.

Tirando o máximo dos seus equipamentos

Em termos práticos, se você tiver uma pedaleira ou um monte de pedais de efeito você tem uma mini mesa de som com muitos plugins capazes de emular cadeias inteiras de pedais e preamps famosos. Se o sinal não estiver ajeitadinho logo de cara, as chances dele ficar todo cagado no meio da cadeia são grandes, e ninguém quer isso.