Sobre ensinar o pobre sobre o que ele tem que ouvir

por Rafa

Saiu hoje uma coluna no UOL Notícias sobre o mito paternalista de que pobre precisa ser apresentado à musica boa, já que a que ele escuta é supostamente ruim.

Aqui eu levanto alguns pontos em relação ao artigo:

1 – A gente é elitista pra caralho: adora dizer o que o preto/pobre/favelado/[insira aqui seu grupo social desfavorecido favorito] enquanto ouvimos de boa o que eles produzem. A culpa varia, no máximo em função de quem tá por perto no momento.

2 – O brasileiro tem uma coisa de ostentação simbólica muito engraçada. Ouve feliz o funk e o sertanejo quando toca, mas fala que é uma merda quando precisa pagar de descolado, que o bom é ouvir o Jazz do Snarky Puppy ou o Dirty Loops (se for algo do momento) ou qualquer medalhão da MPB.

E às vezes a pessoa nem curte aquilo na real.

3 – A impressão que dá é que a gente ainda não entendeu direito o que é cultura pop.

4 – A galera fala como se passasse o dia lendo Dostoiévski e discutindo existencialismo. A vibe é inflacionar o capital intelectual

Se a gente fosse levar esse argumento muito a sério, não era pra ninguém ver, nem ouvir, nem ler nada que não fosse incrivelmente hermético, difícil ou denso.

Vocês iriam querer passar o resto da vida ouvindo Schoemberg? Ouvir a 5a de Mahler nos churrascos da vida? Pois é.

5 – A grande verdade absoluta e irrefutável sobre a cultura de maneira geral: é nos lugares pobres e fudidos que a vida acontece. O lótus só nasce no lodo.

O som de preto, de favelado, que quando toca ninguém fica parado (não precisa ser necessariamente funk: poderia ser o soul, o samba, o blues, etc.) vem desse mundo difícil. De gente vivendo no perrengue e que celebra a vida assim mesmo.

É por isso que todo mundo pira nesses ritmos. Mas ninguém quer admitmir.

6 – O grande problema da cultura de branco é que ela é uma espécie de cemitério para onde as outras culturas vão pra morrer: aquele som avassalador de dez, quinze, vinte anos atrás vira qualquer coisa clean e inofensiva, que dá pra ouvir no conforto do lar ou no carro, distraído no meio dos confortos da vida moderna.

7 – Existe critério pra definir se um som é bom, ruim, melhor ou pior que outro. Só que indicador social não é nenhum deles.

8 – Assino embaixo de tudo no texto, menos na parte que fala que o Ed Sheeran: ele é cafona sim – o que nao é nenhum problema. =)

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