Black Star

por Rafa

Esses dias tava perguntando na TL sobre qual o próximo disco pra “resenhar” – porque eu não resenho nada, só dou uns pitacos guitarrísticos mesmo.

Daí que ontem de manhã, logo depois de acordar e pegar o espertofone, li as notícias da morte do David Bowie. Ele, que tinha lançado um álbum novo dois fucking dias antes. Logo ele que muitos achavam que havia se aposentado de vez, havia renascido das cinzas.

Foi o último canto do cisne. Ou a melhora súbita que o doente tem antes de vir a falecer.

Ou renascido para a eternidade – e é assim que eu prefiro pensar.

Bom, respondida a pergunta pelo mundo, vamos ao disco:

1 – Ele é foda. Mas 90% do impacto e do sentido do disco só fazem sentido porque, bem, é um disco sobre a morte lançado pouco antes do autor morrer. Isso é ao mesmo tempo surreal, foda e paradoxal: a vida inteira acreditei que um disco devia funcionar por si mesmo, fechadinho. Aí vem o Bowie e lança algo que extrapola o limite do diálogo com o mundo lá fora e cria uma obra que é extensão da própria morte. Ou com a morte sendo extensão da obra.

Sabe quando um artista vai lá e apaga um desses limites que separam as coisas? Então…

E é lindo e desalentador. Ele tocou o projeto do disco ao longo dos seus dezoito meses de luta contra o câncer, sem ninguém de fora do seu círculo mais próximo saber. Foi tudo pensado.

Well played, Bowie.

2 – O disco tem uma pegada popzona anos 80. Se você se ligar, vai ver os samplers todos, a bateria eletrônica, a guitarra com aquele monte de reverb e chorus, etc, a pegada meio baladinha, etc. Quase dá pra dançar ao som da música, se pensarmos apenas no som puro, sem todo entorno.

Só que junto desses clichês todos, tem os sintetizadores com umas harmonias nada pop em meio a letras que falam do fim da vida e da futilidade da nossa existência no mundo. Os gotico tudo vão pirar nesse negócio.

3 – Guitarristicamente, não tem firulas difíceis, exceto pela harmonia que de vez em quando escapa dos cliches mais pop.

Mas, caceta, é uma aula de songwriting e uma aula sobre o que é a arte no final das contas. Sobre porque diabos a gente escreve músicas, estuda, ensaia e cria esse monte de ilusões e objetos estranhos e que carregam pérolas do mais puro suco da verdade.

4 – Tem muita gente que não consegue ouvir o disco porque ele fala de morte. É pesado, triste pra caralho e espinhoso, como é inevitável qualquer esboço de diálogo desse ultimate taboo.

É um assunto indigesto, mas que a gente precisa encarar de tempos em tempos. Todo mundo vai morrer – na real, a gente não faz outra coisa nessa vida que não seja morrer aos poucos, desde o dia em que nascemos.

O Bowie foi gênio nesse aspecto também: seria um convite a encarar e falar sobre a morte (e por tabela sobre a vida), se não fosse o fato de que ele nos deixa sem escolha (exatamente como a morte). É o assunto do dia, a pauta da semana, o tema do disco e o elefante na sala que a gente finge não ver. E ele vai ser eternamente lembrado por isso também.

5 – Ele é uma dessas figuras míticas que de vez em quando encarna por aqui. Deixou um legado imenso e reinventou o jeito de se fazer música. Entendeu como poucos o poder do pop e de como conversar com as massas.

Descanse em paz, Bowie. A poeira de estrelas volta ao cosmo. Um dia a gente se esbarra no infinito.

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