Guitarrismos

Mês: janeiro, 2016

Nota mental

1 – Lembrar que dá pra improvisar sobre acordes dominantes (V7) como se fossem mini-progressões ii-V7. Assim, dá pra usar as notas de Dm7 sobre um acorde G7, por exemplo (sem esquecer do cuidado com a nota evitada, obviamente – no caso, a 7a de Dm7 que é 4a de G7, o dó). Em sequências de V7, funciona ainda melhor

2 – Lembrar que dá pra usar a terça menor quando for improvisar sobre um acorde dominante (que é obviamente maior). Num D7, dá pra usar o fá natural ao invés (ou junto) com o fá sustenido.

3 – O subV (vulgo substituto do V grau) se aplica a escalas e não somente a acordes: dá pra improvisar usando um Db7 sobre um acorde de G7, por exemplo (e vice versa)

Sobre ensinar o pobre sobre o que ele tem que ouvir

Saiu hoje uma coluna no UOL Notícias sobre o mito paternalista de que pobre precisa ser apresentado à musica boa, já que a que ele escuta é supostamente ruim.

Aqui eu levanto alguns pontos em relação ao artigo:

1 – A gente é elitista pra caralho: adora dizer o que o preto/pobre/favelado/[insira aqui seu grupo social desfavorecido favorito] enquanto ouvimos de boa o que eles produzem. A culpa varia, no máximo em função de quem tá por perto no momento.

2 – O brasileiro tem uma coisa de ostentação simbólica muito engraçada. Ouve feliz o funk e o sertanejo quando toca, mas fala que é uma merda quando precisa pagar de descolado, que o bom é ouvir o Jazz do Snarky Puppy ou o Dirty Loops (se for algo do momento) ou qualquer medalhão da MPB.

E às vezes a pessoa nem curte aquilo na real.

3 – A impressão que dá é que a gente ainda não entendeu direito o que é cultura pop.

4 – A galera fala como se passasse o dia lendo Dostoiévski e discutindo existencialismo. A vibe é inflacionar o capital intelectual

Se a gente fosse levar esse argumento muito a sério, não era pra ninguém ver, nem ouvir, nem ler nada que não fosse incrivelmente hermético, difícil ou denso.

Vocês iriam querer passar o resto da vida ouvindo Schoemberg? Ouvir a 5a de Mahler nos churrascos da vida? Pois é.

5 – A grande verdade absoluta e irrefutável sobre a cultura de maneira geral: é nos lugares pobres e fudidos que a vida acontece. O lótus só nasce no lodo.

O som de preto, de favelado, que quando toca ninguém fica parado (não precisa ser necessariamente funk: poderia ser o soul, o samba, o blues, etc.) vem desse mundo difícil. De gente vivendo no perrengue e que celebra a vida assim mesmo.

É por isso que todo mundo pira nesses ritmos. Mas ninguém quer admitmir.

6 – O grande problema da cultura de branco é que ela é uma espécie de cemitério para onde as outras culturas vão pra morrer: aquele som avassalador de dez, quinze, vinte anos atrás vira qualquer coisa clean e inofensiva, que dá pra ouvir no conforto do lar ou no carro, distraído no meio dos confortos da vida moderna.

7 – Existe critério pra definir se um som é bom, ruim, melhor ou pior que outro. Só que indicador social não é nenhum deles.

8 – Assino embaixo de tudo no texto, menos na parte que fala que o Ed Sheeran: ele é cafona sim – o que nao é nenhum problema. =)

Black Star

Esses dias tava perguntando na TL sobre qual o próximo disco pra “resenhar” – porque eu não resenho nada, só dou uns pitacos guitarrísticos mesmo.

Daí que ontem de manhã, logo depois de acordar e pegar o espertofone, li as notícias da morte do David Bowie. Ele, que tinha lançado um álbum novo dois fucking dias antes. Logo ele que muitos achavam que havia se aposentado de vez, havia renascido das cinzas.

Foi o último canto do cisne. Ou a melhora súbita que o doente tem antes de vir a falecer.

Ou renascido para a eternidade – e é assim que eu prefiro pensar.

Bom, respondida a pergunta pelo mundo, vamos ao disco:

1 – Ele é foda. Mas 90% do impacto e do sentido do disco só fazem sentido porque, bem, é um disco sobre a morte lançado pouco antes do autor morrer. Isso é ao mesmo tempo surreal, foda e paradoxal: a vida inteira acreditei que um disco devia funcionar por si mesmo, fechadinho. Aí vem o Bowie e lança algo que extrapola o limite do diálogo com o mundo lá fora e cria uma obra que é extensão da própria morte. Ou com a morte sendo extensão da obra.

Sabe quando um artista vai lá e apaga um desses limites que separam as coisas? Então…

E é lindo e desalentador. Ele tocou o projeto do disco ao longo dos seus dezoito meses de luta contra o câncer, sem ninguém de fora do seu círculo mais próximo saber. Foi tudo pensado.

Well played, Bowie.

2 – O disco tem uma pegada popzona anos 80. Se você se ligar, vai ver os samplers todos, a bateria eletrônica, a guitarra com aquele monte de reverb e chorus, etc, a pegada meio baladinha, etc. Quase dá pra dançar ao som da música, se pensarmos apenas no som puro, sem todo entorno.

Só que junto desses clichês todos, tem os sintetizadores com umas harmonias nada pop em meio a letras que falam do fim da vida e da futilidade da nossa existência no mundo. Os gotico tudo vão pirar nesse negócio.

3 – Guitarristicamente, não tem firulas difíceis, exceto pela harmonia que de vez em quando escapa dos cliches mais pop.

Mas, caceta, é uma aula de songwriting e uma aula sobre o que é a arte no final das contas. Sobre porque diabos a gente escreve músicas, estuda, ensaia e cria esse monte de ilusões e objetos estranhos e que carregam pérolas do mais puro suco da verdade.

4 – Tem muita gente que não consegue ouvir o disco porque ele fala de morte. É pesado, triste pra caralho e espinhoso, como é inevitável qualquer esboço de diálogo desse ultimate taboo.

É um assunto indigesto, mas que a gente precisa encarar de tempos em tempos. Todo mundo vai morrer – na real, a gente não faz outra coisa nessa vida que não seja morrer aos poucos, desde o dia em que nascemos.

O Bowie foi gênio nesse aspecto também: seria um convite a encarar e falar sobre a morte (e por tabela sobre a vida), se não fosse o fato de que ele nos deixa sem escolha (exatamente como a morte). É o assunto do dia, a pauta da semana, o tema do disco e o elefante na sala que a gente finge não ver. E ele vai ser eternamente lembrado por isso também.

5 – Ele é uma dessas figuras míticas que de vez em quando encarna por aqui. Deixou um legado imenso e reinventou o jeito de se fazer música. Entendeu como poucos o poder do pop e de como conversar com as massas.

Descanse em paz, Bowie. A poeira de estrelas volta ao cosmo. Um dia a gente se esbarra no infinito.

Dois cents do que aprendi em 2015

Daí que o Bulletproof Musician fez um post grandinho sobre as lições e investigações mais importantes de 2015, segundo ele mesmo.

Guitarristicamente, 2015 foi um ano bem legal pra mim. Consegui manter uma rotina bacana de estudos diários e de ensaios semanais. Toquei com muita gente e me apresentei em alguns lugares. Dei aula e tive aula por tabela, pois estudantes também são mestres implacáveis. Aprendi muita coisa da minha profissão, dessas coisas que se aprendem na rua ao invés da sala de aula. Musicalmente, amadureci bastante.

Então, quero deixar aqui meus dois cents de sabedoria:

1 – Estudo metódico e regular funciona: talvez seja o mais difícil de alguém perceber, principalmente quando se está começando. A gente vê a estrada, as páginas dos métodos a serem lidas e a quantidade de aulas e ensaios a serem feitos e nos intimidamos.

Só que, sendo diligente, as coisas acontecem e a gente melhora. É difícil perceber isso enquanto praticamos, justamente porque estamos tão imersos naquilo que não dá pra olhar com calma com um olhar de fora. Nosso foco inevitavelmente cai no que é mais micro, expediente e pontual. Mas quando completamos um ciclo – um fechamento de um ano de trabalho ou ano letivo, férias, etc. – a gente consegue se desengajar da prática e perceber de forma mais objetiva o que mudou em nós.

É como perder peso: é difícil notar algo visível se olharmos pros nossos corpos diariamente no espelho. Mas se compararmos fotos de antes e depois, veremos a transformação (assumindo-se, claro, a mudança no estilo de vida)

2 – Estudar é tão importante quanto não estudar: desengajamento da prática é importante. De tempos precisamos abandonar por completo nossas rotinas e fazer algo lúdico para recarregar as baterias: viajar, passear por aí, ler alguma coisa, jogar videogame, etc.

Pra mim, é algo que fica bastante nítido nesses dias de pausa de natal e ano novo.

Fim do dia, finais de semana e férias tão aí pra isso. Mas é muito fácil a gente esquecer a hora da pausa e querer compensar por algo que não ficou muito bom no ensaio, ou que parece permanentemente capenga. Parece uma boa idéia redobrar os reforços (de vez em quando é inevitável), mas isso tem um preço.

A mente e o corpo precisam de tempo para se recuperar. O descanso é parte do caminho e da rotina de estudos.

E vocês? O que 2015 trouxe de bom (ou levou de ruim)? O que vocês aprenderam? E o que vocês querem nesse ano de 2016?

Da minha parte, desejo um ano épico para vocês. Que vocês cresçam bastante, aprendam, conquistem coisas e se divirtam no processo. E saúde – que na real é o mais importante. =)