Guitarrismos

Mês: dezembro, 2015

Aula de hoje: “Pagode Jazz Sardinha’s Club”

Daí que o disco dessa semana é de música brasileira. Alternando com o da semana passada, que foi de hip hop (bem, não exatamente), nessa semana temos um discão de samba – mas, bem, não exatamente.

Assim: o disco é de uma gig de samba de responsa. Nunca tinha ouvido falar e nem sou especialista em samba (na real, ouço muito pouco, menos do que deveria), mas ouvi tudo e ta tudo lindo e arrumadinho, sem sobras nem nada faltando.

Pagode Jazz Sardinha's Club

Mas, na real, o disco flerta com um monte de outros rítmos – o que também é uma marca registrada do arranjo brasileiro. Um pouco de raggae aqui, uma batida techno ali, uma baladinha acolá, e por aí vai.

Só que os clichês de samba também estão todos lá, dos solos de trombone e sax aos “laiá laiá” que todo samba tem. Mas o negócio foi feito com um controle tão bem feito que o clichê vira um ornamento, ao invés de um problema (e clichê = problema em 99% dos casos). Tipo quando o arranjo vocal soa um pouco diferente do que você escutaria num disco de samba mais classicão. Ou a construção de uma das composições, que também não tem cara de sambão tradicional.

Pois é. É mais um desses discos que dá uma certa coceira de ouvir, justamente pela ambiguidade. Tem horas que parece jazz, tem horas que parece samba, tem horas que não parece nem uma coisa nem outra. E tirando meia dúzia de momentos muito WTF, o disco é cool do começo ao fim – coisa que não é exatamente comum nos discos de música brasileira.

Talvez tenha sido uma das melhores aulas de como administrar e tirar proveito de clichês – afinal de contas, por que gastar tempo e energia inventando moda se já tá tudo aí pra gente usar, não é mesmo?

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Aula de hoje: “To Pimp a Butterfly”

Daí que eu lancei um desafio de bobeira no Facebook pra galera. Eu abri uma votação/lista de sugestões de discos que eu nunca ouvi na vida. Eu me comprometo a ouvir um deles por semana e escrever aqui sobre o que eu aprendi com o disco, guitarristicamente falando.

Não é crítica – ao menos eu não vejo como – porque eu não sou crítico e o meu objetivo não é dizer se o disco X ou Y é bom ou ruim – as indicações dos meus amigos já fazem um filtro eficiente nesse sentido.

Isso posto, vamos ao primeiro disco, que pode ser ouvido aqui: “To Pimp a Butterfly”, do Kendrick Lamar (2015)

To Pimp a Butterfly
Eu quase nunca escuto hip hop. Só quando passa em algum programa de TV, ou naquelas TVs gigantes de bar onde só passa clipe de música pop, ou em algum vídeo que alguém linkou em algum post sobre preconceito racial. O último que eu ouvi, do Drake dançando no “Hotline Bling”, foi por conta de um meme.

Isso posto, eu confesso que fiquei bastante impressionado com o disco. É bem diferente do que eu (não) estou acostumado a ouvir. Manja esses raps em que o cara fala de quantas mulheres pegou e quanto dinheiro tem? Era algo que tinha bastante no rock antes dele virar um estilo corporativo/pseudofilosófico/mela cueca.

Então: o cara pega isso tudo e resolve metralhar pra todo lado. Manja tudo que tem de controverso na cultura do rap e do hip hop? Machismo, abuso de drogas, cultura de armas e violência, etc? Então, ele pega isso tudo e usa como porrete para dar uma surra nos aspectos fundamentalmente errados na cultura de branco.

Mas na real o que me impressionou foi a sonoridade: o Kendrick Lamar misturou jazz, soul e um monte de pirações musicais num disco que, se não lançou um estilo novo, foi por muito pouco.

É uma zona: tem compasso composto, falsete de desenho animado, gravação em que é só voz descendo a letra, improviso atonal, gig de jazz comendo enquanto ele desce a letra, baladinha soul-pop-lounge pra dançar e o escambau. Eu, no meu parco conhecimento de hip hop, diria que tá um trabalho bem completo.

É engraçado que a loucura sonora do disco contrasta com o teor das letras super bem escritas e da linha narrativa do disco. Fazia tempo que eu não ouvia algo tão sutilmente perturbador e nada óbvio. Me lembrou bastante os poucos discos de fusion que eu ouvi, que tem bastante coisa nessa pegada.

Se a gente for falar estritamente da guitarra no disco, elas tão presentes e bem tocadas, mas nada excepcional dentro dos arranjos – é um disco de hip hop, não podemos esquecer. Elas estão lá pra resolver, e o fazem de forma eficiente. Mas devo dizer que curti bastante o timbre limpo com a pitada de efeitos de modulação em “These Walls”.

Mas acho que a maior lição desse disco é sobre prosody, tomando o termo do Pat Patinson (que por sua vez tomou de Aristóteles): como as partes discretas se encaixam para fazer um todo coeso.