Sobre muletas, barreiras e ferramentas

por Rafa

Ontem, antes do ensaio, o percussionista e a a cantora da banda tiveram uma dessas pequenas lavagens de roupa suja que sempre tem em banda.

Ela é uma cantora com formação de canto coral clássico. Cantou a vida inteira com uma partitura, sempre com um olho nas bolotas e outro no gesto do maestro.

Como ela veio de um outro background, de um outro mundo musical, ela frequentemente levava umas rasteiras da salsa – a levada é outra, a pegada, o som, o idioma, etc. O fato é que ela estava tendo uma enorme dificuldade em criar uma boa performance. E eu entendo o lado dela: ainda que o objetivo final da coisa toda seja o aprendizado, rola uma pontada de humilhação e frustração por se sentir incapaz de fazer algo que se esteja habituado a fazer – ainda que sair da zona de conforto seja exatamente o que nos faz aprender.

O percussa, macaco velho do estilo, mandou a real: aquila postura não iria adiantar muita coisa. Mesmo com a partitura em mãos, precisava memorizar a música o quanto antes, de cabo a rabo. Isso que implica em saber as convenções todas, as entradas e a como se situar com fluidez na música, sem travar.

Foram palavras bem duras, mas que revelavam o mundo real da salsa e das outras músicas populares: você precisa aprender como que aquele som funciona e precisa se virar ali dentro o quanto antes.

O primeiro grande obstáculo

Quase todo mundo que começa os estudos de música tem uma certa aversão à leitura e a tudo que vem por tabela: harmonia, análise, solfejo, ditados, etc. Normal: a gente quer se divertir e botar o bloco na rua, sem perder tempo com o que não é interessante e nem divertido.

Além disso, o começo é sempre doloroso: até a pessoa se familiarizar de verdade com aquilo, são alguns bons meses (ou anos) se habituando com aquilo. E cansa: é como aprender um idioma novo. Nas primeiras aulas, o esforço mental necessário para realizar aquilo é estafante.

E pra que se aborrecer quando podemos nos divertir, não é mesmo?

O segundo grande obstáculo

Depois que a gente começa a se habituar com a parafernália teórica – eu ia dizer partitura, mas pode botar aí as anotações, colas, enfim, qualquer coisa que não seja apenas memória – é muito difícil largar. É quase como se adquirissemos um vício nessas ferramentas.

Tudo aquilo que travava o nosso desenvolvimento passou a ser a nossa bengala. Isso é ótimo por um lado, pois significa que aprendemos a tirar proveito de algo que pode nos empurrar ainda mais para frente. Por outro lado, essa dependência acaba sendo o novo limitante, e a gente fica ainda mais perdido do que na época em que se virava só com o ouvido ou a memória.

É paradoxal, mas a gente fica inteligente num aspecto ficando burro em outro.

Seguindo o caminho para depois abandona-lo

O ideal é saber tirar proveito das ferramentas, sem criar dependencia. O ideal é que a gente seja capaz de tocar sem travar em hipótese alguma. Ainda que isso nem sempre seja possível, é aonde a gente tem que mirar.

Além de uma rotina intensa de estudo, isso também implica num preparo “espiritual” do músico – não num sentido religioso, mas de criar uma sabedoria sobre tudo aquilo que não é revelável só com teoria.

Se a parte teórica já é um oceano, essa parte então é uma profundeza abissal que ainda precisa ser investigada, estudada e catalogada

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