E se acontecesse uma fusão de academias e conservatórios?

por Rafa

O título parece louco para você? Afinal, o que diabos tem a ver tocar violão com levantar peso ou jogar bola? Ou qual seria a relação ente fazer parte do naipe de cellos de uma orquestra jovem e paraticar repetições de exercícios de kung-fu?

Nenhuma? São coisas diferentes?

Talvez. De fato, as aplicações de se aprender, digamos, a finalizar um oponente no jiu-jítsu não são as mesmas de se ajeitar a embocadura de um sax. As atividades finais e os objetivos finais são completamente diferentes.

Os processos, entretanto, não são tão diferentes assim.

Quando as pesquisas sobre atletas tem aplicação musical

Pesquisa voltada para práticas esportivas competitivas são um nicho importante e que sempre recebe incentivos, não exclusivamente financeiros. O motivo é óbvio: maior investimento implica em inovações e transformações na forma como se prepara e cuida de atletas. Por tabela, isso implica em maior número de recordes e títulos, e consequentemente mais dinheiro retornando para quem investe seriamente nesse tipo de espetáculo.

Aí, da-lhe de estudar biometria, psicologia esportiva, medicina preventiva, etc. O foco são os processos que se dão nos atletas enquanto treinam ou jogam. E esses processos físicos e mentais, apesar de serem diretivos e voltados para um determinado resultado de treino ou jogo, não ocorrem exclusivamente nessas circunstancias. As estratégias psicológicas para lidar com estresse e pressão em jogo podem funcionar para lidar com pressão e estresse em outros contextos.

É aí que a gente se beneficia.

Lógico, música não é esporte no sentido estrito do termo. Ainda assim, compartilha uma realidade comum com práticas esportivas. Estudar música dá trabalho e demanda um esforço físico e mental que varia de instrumento para instrumento, e de estilo para estilo. Não é à toa que, em muitas línguas, a palavra para tocar e jogar é a mesma.

O contrário também acontece, ainda que em menor grau. Estudar músicos tocando para se tentar chegar a alguma conclusão que possa ser útil ao treinamento de pessoas de maneira geral e atletas e particular (a própria pesquisa das 10k horas, do Pinker, foi nessa vibe). O motivo é quase sempre o interesse econômico: é muito mais fácil levantar fundos para uma pesquisa que possa beneficiar um time de futebol a ajudar bandas independentes.

Rigor científico

Talvez a maior vantagem para os músicos é que, aplicando um pouco de método e conhecimento científico, o estudo e a prática se tornam muito mais eficientes – fora que inovação dá uma revigorada naquelas práticas que a gente ja cansou de ver.

Normalmente, tendemos a um certo tradicionalismo ao aplicar métodos e caminhos que criaram gerações inteiras de músicos. Buscamos os autores e intérpretes consagrados, e devoramos as bíblias dos assuntos que nos interessam. No Brasil, isso é especialmente verdadeiro, visto que muita gente tem uma formação musical fora de instituições formais de ensino regular, mas com toda uma tradição por trás. Basta ver quem aprende a cantar em igreja ou quem frequenta quadra de escola de samba.

O problema é que, junto com o que funciona, vem um monte de coisas que não funciona. O violinista do século XIX que estudava para uma audição de orquestra viveu num mundo diferente do nosso. Ele fazia e ouvia uma música diferente, num contexto social e artístico que a gente nem tem como imaginar direito como foi. O que garante que aqueles métodos todos funcionem hoje da mesma forma que funcionaram ontem?

Ok. Onde posso aprender mais sobre isso?

Bom, existem alguns canais que podem te ajudar, além desse blog que você está lendo neste exato momento.

O Bulletproof Musician é um blog de music coaching, e recentemente tem falado quase que exclusivamente sobre isso.

O Jazzadvice segue uma linha parecida, com um pouco menos de ciência e mais coaching. Mas eles sempre tem um monte de métodos e propostas interessantes para os estudos.

E, é claro, os vídeos do TED, que são de encher os olhos.

Anúncios