Guitarrismos

Mês: outubro, 2015

E se acontecesse uma fusão de academias e conservatórios?

O título parece louco para você? Afinal, o que diabos tem a ver tocar violão com levantar peso ou jogar bola? Ou qual seria a relação ente fazer parte do naipe de cellos de uma orquestra jovem e paraticar repetições de exercícios de kung-fu?

Nenhuma? São coisas diferentes?

Talvez. De fato, as aplicações de se aprender, digamos, a finalizar um oponente no jiu-jítsu não são as mesmas de se ajeitar a embocadura de um sax. As atividades finais e os objetivos finais são completamente diferentes.

Os processos, entretanto, não são tão diferentes assim.

Quando as pesquisas sobre atletas tem aplicação musical

Pesquisa voltada para práticas esportivas competitivas são um nicho importante e que sempre recebe incentivos, não exclusivamente financeiros. O motivo é óbvio: maior investimento implica em inovações e transformações na forma como se prepara e cuida de atletas. Por tabela, isso implica em maior número de recordes e títulos, e consequentemente mais dinheiro retornando para quem investe seriamente nesse tipo de espetáculo.

Aí, da-lhe de estudar biometria, psicologia esportiva, medicina preventiva, etc. O foco são os processos que se dão nos atletas enquanto treinam ou jogam. E esses processos físicos e mentais, apesar de serem diretivos e voltados para um determinado resultado de treino ou jogo, não ocorrem exclusivamente nessas circunstancias. As estratégias psicológicas para lidar com estresse e pressão em jogo podem funcionar para lidar com pressão e estresse em outros contextos.

É aí que a gente se beneficia.

Lógico, música não é esporte no sentido estrito do termo. Ainda assim, compartilha uma realidade comum com práticas esportivas. Estudar música dá trabalho e demanda um esforço físico e mental que varia de instrumento para instrumento, e de estilo para estilo. Não é à toa que, em muitas línguas, a palavra para tocar e jogar é a mesma.

O contrário também acontece, ainda que em menor grau. Estudar músicos tocando para se tentar chegar a alguma conclusão que possa ser útil ao treinamento de pessoas de maneira geral e atletas e particular (a própria pesquisa das 10k horas, do Pinker, foi nessa vibe). O motivo é quase sempre o interesse econômico: é muito mais fácil levantar fundos para uma pesquisa que possa beneficiar um time de futebol a ajudar bandas independentes.

Rigor científico

Talvez a maior vantagem para os músicos é que, aplicando um pouco de método e conhecimento científico, o estudo e a prática se tornam muito mais eficientes – fora que inovação dá uma revigorada naquelas práticas que a gente ja cansou de ver.

Normalmente, tendemos a um certo tradicionalismo ao aplicar métodos e caminhos que criaram gerações inteiras de músicos. Buscamos os autores e intérpretes consagrados, e devoramos as bíblias dos assuntos que nos interessam. No Brasil, isso é especialmente verdadeiro, visto que muita gente tem uma formação musical fora de instituições formais de ensino regular, mas com toda uma tradição por trás. Basta ver quem aprende a cantar em igreja ou quem frequenta quadra de escola de samba.

O problema é que, junto com o que funciona, vem um monte de coisas que não funciona. O violinista do século XIX que estudava para uma audição de orquestra viveu num mundo diferente do nosso. Ele fazia e ouvia uma música diferente, num contexto social e artístico que a gente nem tem como imaginar direito como foi. O que garante que aqueles métodos todos funcionem hoje da mesma forma que funcionaram ontem?

Ok. Onde posso aprender mais sobre isso?

Bom, existem alguns canais que podem te ajudar, além desse blog que você está lendo neste exato momento.

O Bulletproof Musician é um blog de music coaching, e recentemente tem falado quase que exclusivamente sobre isso.

O Jazzadvice segue uma linha parecida, com um pouco menos de ciência e mais coaching. Mas eles sempre tem um monte de métodos e propostas interessantes para os estudos.

E, é claro, os vídeos do TED, que são de encher os olhos.

Sobre como se preparar e fazer uma audição

Recentemente, fiz uma audição para participar de um grupo de salsa. Mesmo sendo uma prova, foi uma experiência muito bacana. Fazia tempo que eu não passava pela adrenalina de uma audição.

Salsa é um ritmo que eu nunca toquei na vida. Provavelmente eu já toquei algo parecido, mas nada que eu me lembre.

Por um lado, era a minha vaga que estava em jogo, o que já me deixava apreensivo e fazia a adrenalina jogar contra (sim, detesto perder). Por outro, essa mesma adrenalina foi o que me motivou a manter um estudo regular de instrumento e a me preparar para a prova, cortando o torpor habitual da rotina de estudo. Além disso, eu tive algumas surpresas na hora da audição, e acredito que o resultado positivo que obtive se deve, em parte, a ter reagido e jogado de acordo com o que rolava ali na hora.

Pensando nisso, resolvi escrever esse post, em forma de guia prático sobre como encarar audições. E por audição, entenda-se qualquer prova, teste, avaliação que você for fazer para qualquer coisa – teste para televisão, gig, THE de faculdade, THE de bolsa no exterior, etc.

1 – Tudo começa e termina na mente.

Toda audição é uma competição contra si mesmo, contra outros músicos ou ambos. É um momento delicado em que a gente se expõe ao pior tipo de ambiente controlado: aquele onde seremos julgados por músicos mais capazes e experientes. É a causa de muito choro na entrada e na saída das provas.

É natural que isso mexa com a gente. Sentir aquele nervoso básico e a adrenalina correndo nas veias faz parte do processo, e saber lidar com esse tipo de situação é fundamental. Dependendo, é até um ponto a ser avaliado, se o aluno tem stage fright (medo de palco) ou não.

A gente costuma estudar muitas escalas e arpejos, mas boa parte do treino é educar a nossa mente e o nosso lado emocional para lidar com esse tipo de situação desconfortável e propensa a sentimentos de aversão. Parte do treino é justamente sobre aprender a lidar com essa pressão numa boa.

2 – Destrinche o que é pedido e dedique um tempo necessário proporcional ao nível da prova

Toda audição tem um conteúdo a ser assimilado. Provas mais simples podem pedir uma canção de livre escolha do candidato, enquanto outras podem pedir peças inteiras ou vários excertos de várias peças importantes dentro do repertório do instrumento ou do grupo que você deseja integrar. Outras, como os vestibulares, tem um THE com um conteúdo programático específico descrito em um edital.

O ponto é simples: entenda o que é pedido e se planeje de acordo com o teor da prova. Isso implica em montar uma rotina de preparo e estudos realista, num intervalo de tempo proporcional ao que é pedido, alternando sessões de estudo e descanso. Uma prova simples pode pedir uma preparação de algumas semanas, enquanto que outras audições podem demandar um estudo focado por períodos de um ano ou mais.

Dependendo do nível da prova (e do seu nível), talvez você precise de um professor que te ajude a destrinchar o conteúdo de forma eficiente. Não dá pra perder tempo.

3 – Use a prova e a preparação da prova como método para desenvolver habilidades

Eu sei que é difícil ver o lado positivo nesse esforço todo, mas é importante olhar as coisas com bons olhos e tentar cultivar uma boa motivação para o estudo. Moral baixa afeta o rendimento do processo como um todo, e sobrecarrega os nervos que já estão sob estresse.

Além desse treino espiritual, aproveite para colocar em dia aqueles pontos da sua prática (ou teoria) que estão meio capengas.

Talvez esse seja o melhor espírito para se fazer uma prova – e pode botar aí na conta toda a preparação envolvida.

4 – Seja flexível

Aconteceu uma coisa engraçada na minha última audição.

A prova consistia numa entrevista seguida de uma peça de livre escolha que eu deveria tocar. Preferencialmente, algo dentro do repertório da gig (salsa, no caso), mas poderia ser de qualquer outro estilo.

Optei por tocar um arranjo meu da música “Stella by Starlight”, um standard classicão de jazz que todo guitarrista precisa aprender em algum momento da vida. Tecnicamente, é uma música bem completa – forma AABA com bons temas, tensões, harmonia complexa mas sem passar do ponto, o que permite fazer coisas bastante interessantes. E a peça ainda por cima é linda.

Fiquei umas boas semanas recuperando a forma das férias enquanto ia construindo um arranjo de chord melody bacana para ser apresentado. Queria causar uma boa impressão, afinal de contas.

Na hora da prova, o maestro apenas me passou um shuffle de salsa para acompanhar o resto da banda e depois me pediu para improvisar do nada sobre uns chorus. Assim, do nada. E lá estava eu, improvisando do nada numa música que eu jamais havia tocado na vida, tendo que me virar nos detalhes da levada da salsa.

Esteja preparado para o inesperado. Seja flexível

5 – Seja paciente

Fato: as chances de aprovação numa audição varia em função de uma série de fatores alheios ao nosso controle. Ainda que possamos controlar muitos deles, sempre há a chance de haver gente mais madura ou capaz fazendo a mesma prova. Quem faz prova para bolsa no exterior sabe o que eu to dizendo.

Essa pode não ser a sua vez. Bola pra frente e continue lutando o bom combate.

Paciência também é importante quando precisamos nos preparar para uma prova complexa por períodos longos de tempo. Aquele ano inteiro de curso de solfejo pode parecer sacal, mas vai fazer uma diferença absurda na sua vida.

6 – Saiba competir

Provas são competições para ver quem está mais apto segundo meia dúzia de critérios arbitrários decididos por alguém. Para cada aprovado na seleção comemorando a vaga, teremos cinco, dez, quinze, cinquenta almas que sairão da sala de prova sem um perspectiva muito melhor do que tentar outra vez ou tentar outra coisa.

Não é uma prática justa, meritocrática e nem inclusiva. Mas é o que tem pra hoje, e é nesse mundo que a gente precisa jogar.

Há quem exacerbe o espírito competitivo e veja qualquer pessoa disputando a mesma vaga como um adversário mortal. Outros optam pela via “pacífica”, e negam com todas as forças o embate no qual estão metidos.

A primeira postura é propensa a gerar inimizades – e, vai por mim, a última coisa que você quer é animosidade e antipatia no meio musical. É um meio em que pessoas dependem umas das outras o tempo todo. Nesse aspecto, é melhor usar a audição para fazer novas amizades ao invés de inimizades.

A segunda postura é propensa a fazer com que você sabote suas próprias habilidades. Se esconder não vai te ajudar em nada, e também pode priva-lo de mostrar para outros músicos as suas habilidades. O pacifismo forçado também é uma armadilha interpessoal.

A melhor forma de sair dessa sinuca é jogar o jogo da prova da forma mais honesta possível, tendo compaixão por você e pelas outras pessoas que estão na mesma situação. Basicamente, lutar o bom combate.

7 – Esteja em forma

O Dr. Noa, guru dos músicos, em um artigo recente falou da diferença do jogador de tenis casual e do profissional. Basicamente, o primeiro joga para treinar o corpo, e o segundo treina o corpo para jogar.

Com o músico não é diferente: a gente precisa estar em forma para tocar. Tirar um bom som depende disso. Precisão e pegada certa vem de muito treino muscular, alongamento e exercício. Parte do treino consiste em manter a forma, para as horas em que ela precisa ser posta à prova.

8 – Saiba a hora de parar

Foco, atenção, energia, músculos descansados, etc. são nomes bonitinhos para uma série de recursos limitados que temos.

Tocar cansa, e estudar cansa também. Ok, tudo isso é lindo e faz um bem danado a nós. Mas cansa, e saber a hora de se desengajar da prática é tão importante quanto saber manter um estudo focado e atento, justamente para que possamos recuperar a energia e o foco.

Emburacar numa rotina insana de estudos é contraproducente. O resultado é uma prática tecnicamente fraca e nervos em frangalhos.

O que eu tenho feito e tem funcionado lindamente comigo é manter pelo menos duas horas diárias de estudo, no esquema 50:10. Para cada cinquenta minutos de estudo, dez de descanso longe do instrumento. E em cada sessão, eu vou passando os pontos a serem estudados.

Obviamente, esses valores variam de pessoa para pessoa. Há quem prefira 30:30, ou 60:20, ou 40:20, ou estude segundo a vibe do momento. O importante é saber a hora de parar.