Guitarrismos

Mês: agosto, 2015

Descanse em paz, Dr. Sacks

Hoje é um dia triste para a ciência e para a música: faleceu o Dr. Oliver Sacks, um dos maiores especialistas em cérebro e consciência humana.

Ele foi o autor de um monte de livros sobre casos clínicos de pacientes com deficiências e desordens mentais. Ele usava essas histórias como ponto de partida para refletir sobre a condição dos seus pacientes em particular e sobre a condição humana de maneira geral. Poucas pessoas foram tão brilhantes e tão compassivas em seus campos de estudos como ele.

Ele era especialmente conhecido no meio musical pelo seu livro “Alucinações Musicais“, livro que trata de casos específicos do mundo da música. Ele cuidou de pessoas com deficiências neuroperceptivas variadas que afetavam sua experiência musical – desde de gente incapaz de diferenciar o ruído da rua de uma nota musical a savants autistas com poderes quase alienígenas, capazes de tirar de ouvido numa tacada só peças extensas com arranjos complexos e que se tornaram virtuosos em seus instrumentos em um intevalo bem pequeno de tempo.

Em fevereiro desse ano, ele escreveu sobre o seu cancer terminal e sobre a iminencia da própria morte. Possivelmente, uma das coisas mais lindas, tristes e lúcidas que eu já li sobre a morte e sobre a vida.

E hoje ela veio.

Descanse em paz, Dr. Sacks. Obrigado pelos insights, pela lucidez, pela sabedoria e pelo conhecimento. :’)

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O que música, retórica, canções e videologs tem em comum?

Uma das coisas legais de estudar songwriting – ou composição de canções em PT-BR, embora eu sinta que não seja a mesma coisa – é que você passa a conhecer melhor a relação de três mundos aparentemente alienígenas entre si: o mundo da escrita, o mundo da fala e o mundo da música.

É importante conhecer esses três mundos. Na verdade eles são aspectos de um mesmo contínuo, que é a comunicação e a expressividade humana. Apesar de serem difentes, suas regras e processos se afetam mutuamente o tempo todo.

Colocando em termos práticos, entender melhor a escrita e a fala de um idioma vai te ajudar a te fazer um som melhor. Pode reparar: dificilmente um bom compositor ou intérprete é um ignorante da própria língua.

Diferenças entre escrita e fala

O fato é que, dependendo do meio, nós nos comunicamos de maneira diferente. Se eu tiver que escrever uma carta, por exemplo, a pegada do texto vai ser completamente diferente do que seria se fosse um email ou de um recado de whatsapp.

Essa diferença fica ainda maior se for comparada com a comunicação oral. Se eu tiver que te telefonar para tratar de qualquer assunto, a minha forma de comunicação vai mudar. Dentre outras coisas, eu sei que eu vou me repetir muitas vezes para que você compreenda e não esqueça o que eu estou falando. Coisa que, no texto, normalmente não acontece.

O que retórica e música tem em comum?

O professor de songwriting Pat Pattinson, em seu livro Writing Better Lyrics (e provavelmente em outros sobre o mesmo assunto) nos fala da importância das Power Positions, ou das posições de poder nas frases. Essas posições são os começos de frase e os pontos onde acentuamos e colocamos a tonicidade das palavras.

São os pontos que mais chamam a atenção, e é onde colocamos as palavras em destaque.

É um aspecto importante para quem escreve canções e textos a serem lidos publicamente. Normalmente, não é algo que um autor de prosa vá se preocupar. Mas um poeta com certeza o faria. Ou um ator. Ou um videologger. Ou um comediante standup. Ou um líder religioso. Ou um político. Na real, qualquer um que trabalhe com a voz precisa manjar, conscientemente ou não.

Não entendeu? Então vamos fazer um exercício simples: pegue a frase “Eu te amo” e repita ela em voz alta, colocando todo o seu peso, sua ênfase e sua energia em cada palavra. Repita uma vez colocando a enfase no “Eu”, depois no “te” e depois no “amo”.

Poder ir. Ninguém vai te julgar. =)

Então, teremos:

  • Eu te amo
  • Eu te amo
  • Eu te amo

Repare que é a mesma frase, mas com uma pegada completamente diferente. Cada uma passa uma ideia mais ou menos distinta dentro do campo semantico possível dessa frase. Tudo porque deslocamos suas posições de poder.

Da próxima vez que você for escrever uma música, ou gravar um vídeo na internet, ou fazer uma apresentação, preste atenção na maneira como você fala, e de que maneira você acentua ou esconde as palavras. A diferença entre alguém entender ou não a sua idéia (ou compra-la) pode estar aí.