Como fazer soar uma escala, parte 1 – Sobre modo maior, seus modos gregos e gambiarras

por Rafa

Todo guitarrista, em algum momento da sua formação, passa pelo estudo dos famosos modos gregos. Seja por conta do estudo de improviso ou de mapeamento do braço do instrumento,numa bela hora a gente começa a tocar aquelas escalas de nomes estranhos.

Começamos daquela maneira bem básica, pegando a boa e velha escala de dó maior e tocando a seqüência clássica de notas, sempre variando o começo e o final: tocamos de ré a ré, mi a mi, fá a fá, até completar o ciclo. Assim nascem os modos gregos.

Normalmente, dentro do contexto tonal do estudo, a gente ouve aquilo tudo apenas como o dó maior. Só que essas seqüências de notas iniciadas e terminadas em outras notas começam a fazer cócegas no nosso ouvido – e se você ainda não sentiu essa sensação engraçada, sugiro que continue estudando mais um pouco.

O paradoxo

Aí vem a hora de improvisar. Falando em termos bem grosseiros, as bíblias do improviso nos dizem que, dentro de um determinado acorde, teremos que tocar determinada escala daquele acorde, evitando ou resolvendo as famosas notas evitadas – o quarto grau no acorde do primeiro grau, o primeiro grau no acorde dominante do quinto grau, etc.

(lógico que não é só isso – apenas estou forçando a barra para simplificar)

Aí a gente volta à velha escala maior e aos seus acordes. Por exemplo, se estivermos em Dó – e assumindo-se que fiquemos apenas na harmonia tonal diatônica –  tocaremos sobre os acordes de C7M, Dm7, Em7, F7M, G7, Am7 e Bm7(b5).

O que os livros nos dizem?

Que sobre o acorde do primeiro grau, é para tocar o modo Jônio de Dó. Sobre o Dm7, o dórico de D, etc.

Não precisa ser muito inteligente para sacar que, dentro desse contexto de dó maior, o guitarrista vai tocar apenas as notas da escala de dó. As notas desses modos todos são rigorosamente as mesmas: C jônico tem as mesmas notas de D dórico, E frígio, F Lídio, G Mixolídio, A eólio e B lócrio.

Assim sendo, é só aplicar a escala de dó respeitando as notas evitadas em cada acorde.

Certo?

A Gambiarra

Tem dois problemas nesse tipo de abordagem.

O primeiro é que ela é preguiçosa. Tentar resolver toda uma progressão diatônica com uma única escala para vários acordes é uma tremenda duma gambiarra. Ela até funciona com uma boa parte das vezes, mas não sem o custo de reduzir toda uma possibilidade de sonoridades à um único contexto harmônico de uma única escala.

Usar esse macete de vez em quando (ênfase no “de vez em quando”) até vai. Mas transforma-lo no seu recurso principal, além de reduzir drasticamente suas possibilidades de improviso, flerta com a falta de ética artística.

O segundo problema, e bem mais sério, decorre de se ignorar as próprias sonoridades específicas dos modos. Um dórico não é apenas um modo maior que começa e termina no segundo grau da escala – ele tem toda uma sonoridade diferente criada pelos intervalos das notas nas escalas e seus graus característicos.

Além disso, parte da sonoridade modal esta na maneira como essas notas são tocadas. É justamente esse recurso que faz com que um dórico soe dórico e um frígio soe frígio, e não como modo maior de outra tonalidade.

Quando se fala em modalismo, falamos principalmente de contextos e clichês modais, além das notas. E é justamente disso que eu vou tratar nos próximos posts. =)

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