Como estudar – preparando repertório

por Rafa

Tocar para um público é, na minha humilde opinião, a parte mais legal e a que mais dá sentido ao trabalho do músico. A gente está aqui para isso.

Preparar uma performance musical é algo que requer bastante empenho e seriedade. Amadurecer um repertório até deixa-lo no ponto para a apresentação é uma tarefa que demanda muita dedicação nos ensaios. É preciso ter olhos (e ouvidos) clínicos para ir percebendo e ajeitando o que precisa ser ajeitado até a apresentação.

Também precisamos ter muita paciência e serenidade Parte do gerenciamento de ensaios e estudos consiste em gerenciar as coisas para evitar o burnout (exaustão) da galera. Energia, motivação e drive (e aqui eu não me refiro ao pedal de distorção) também são recursos limitados.

Além disso, existe o tempo, essa coisa escassa e que nunca parece estar a nosso favor. Assim sendo, o ideal é ensaiar para perder o mínimo de tempo possível.

Para dar conta de tudo isso, sigo esse roteirinho de estudo – roteiro que, na real, não tem nada demais, já que 90% dos músicos segue algo mais ou menos assim. A diferença é que eu adicionei alguns cents de sabedoria que eu aprendi ao longo do tempo.

1 – Arrume uma gravação

Pode ser uma performance clássica que te inspire a tocar, pode ser o original com o qual você vai fazer o cover ou até uma gravação guia da própria banda, bem simplificada.

O importante aqui é ter uma referência de como que aquela música soa de verdade.

Ainda que você queira criar uma sonoridade própria e inédita, você vai precisar de referências que sirvam como inspiração e ponto de partida. Nesse aspecto, gravações são insubstituíveis.

2 – Comece buscando uma fonte escrita confiável

Uma vez definido o repertório, eu prefiro procurar alguma fonte fidedigna de estudo. Realbook, songbook, cifra ou partitura, site de cifras e até tablatura. Vale tudo, desde que esteja tudo certo.

Nesse aspecto, se o material vier de algum site, é preciso checar várias vezes se ele está todo certinho.

Ter uma fonte impressa é importante por dois motivos: o primeiro é te permitir escrever e anotar coisas importantes que precisam ser feitas ao longo dos ensaios. A segunda é te liberar da árdua tarefa de tirar a música de ouvido.

Apesar de ser uma tarefa de extrema importância, tirar músicas se torna contraproducente quando o tempo é limitado, principalmente se o repertório for complicadinho. Por hora, é mais jogo deixar esse tipo de exercício de percepção de lado.

2 – Leitura

Com o material de estudo em mãos, o próximo passo é ler tudo e tocar aquilo até ficar tudo em baixo do dedo.

Essa etapa pode ser feita antes, depois ou junto da etapa 3. O motivo da minha preferência em analisar depois é que eu sinto que penso melhor sobre uma música depois que ela está devidamente memorizada.

3 – Análise melódica e harmônica

Eu diria que essa é a etapa mais importante, que vai nos permitir entender o que diabos está acontecendo. Colocando de maneira bastante simples, não há possibilidade de fazer nada direito sem análise.

Forma da música, divisões, retornos, progressões utilizadas, modulações, motivos, notas melódicas e ornamentos etc. Tudo isso vai sendo mapeado e destrinchado de forma minunciosa

Há quem prefira analisar a peça antes de sair tocando, justamente para começar o estudo numa direção mais ou menos certa, já sabendo o que vai encontrar pela frente. Ambas estratégias funcionam. Escolha a que servir melhor para você.

4 – Improviso seguro – aplicação de escalas e acordes

Uma vez que a música esteja devidamente analisada e memorizada, já dá pra começar a improvisar sobre ela. É a análise bem feita que vai nos permitir a aplicação de escalas e utilização de idéias musicas que funcionem dentro daquele determinado contexto melódico e harmônico.

Nessa etapa, eu opto por usar escalas, arpejos e clichês de forma bem simples, para sondar o que funciona ou não. A idéia é improvisar de forma “segura”, testando escalas e acordes sem pressão por um grande solo.

Eu costumo ficar um tempo razoável nessa etapa, principalmente quando eu sei que vou improvisar sobre progressões que modulam muito rapidamente.

Além disso, é divertido e reconfortante ficar brincando sobre uma música que já está devidamente aprendida. É uma estratégia para driblar o tédio e o cansaço de estudar uma música que já está mais do que destrinchada

5 – Improviso livre

A etapa anterior é como entrar no rasinho da piscina. Nessa, a gente se joga no mar agitado.

Aqui o improviso é livre. Não vou dizer como e nem o que fazer. Boa sorte. =)

6 – Ensaio

Nessa etapa, a ideia é testar o que foi feito no em casa durante o ensaio com o resto da banda. Ver o que funciona e o que precisa ser refeito. Fora que o ensaio é o melhor momento para conversar com o resto da banda sobre o que você andou estudando e fazendo, com todo mundo ali pronto tocando ao vivo e em tempo real.

Talvez aqueles voicings que funcionaram lindamente no silêncio do seu quarto não tenham ficado tão bons no ensaio. Ou pode ser que aquele modo frígio que você arriscou em casa não esteja soando bem com o resto da banda. Ou aquela levada sem palheta esteja soando muito sem brilho.

Também é preciso ficar ligado quando tudo funciona bem e não apresenta problema algum. Não é porque está tudo bem que a gente precisa relaxar.

7 – Revisar

O ensaio foi bom e tudo funcionou? Então é hora de voltar para casa e praticar aquilo tudo de novo, e quem sabe testar umas ideias novas.

Não funcionou? Então é preciso revisar os pontos que não deram certo e ajeitar tudo para o próximo ensaio.

Sempre há algo para ser depurado e refeito. Na real, o trabalho nunca acaba – ele só vai ficando mais e mais refinado

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