Como a leitura tem ajudado a percepção e vice-versa.

por Rafa

Uma coisa que tem me ajudado bastante no estudo de percepção musical, por mais incrível que pareça, é… a leitura!

Cada vez mais eu me convenço de que o processo de percepção nada mais é do que o de o reconhecimento de algo.

Sim, parece uma afirmação óbvia e besta, daquelas tão óbvias e bestas que a gente nem se dá conta. Tipo aquela historinha dos peixes que o David Foste Wallace conta (pode googlear), na qual eles são incapazes de enxergar a água em que vivem.

A gente não reconhece nada inédito. Se é inédito, a gente é apresentado e passa a conhecer (ok, tem um debate filosófico gigante sobre conhecimento inato x aprendizado que eu não pretendo iniciar agora, mas vocês entenderam)

Por definição, reconhecer (re-conhecer) pressupõe, pela etimologia da palavra, conhecer de novo aquilo que já se sabia anteriormente.

A gente só reconhece aquilo que já notamos e sentimos um bilhão de vezes e que não tem nada de inédito em nossas vidas. Podemos não ter acesso às causas, mas sentimos seus efeitos. E, assim como um cientista cria meios de observar a causa (por meio de microscópios, sensores, etc.) e observar algo que ele SABE que já está lá, fazemos um esforço em tentar ouvir com clareza o que está acontecendo.

É aí que a leitura entra.

Por meio da leitura musical, somos apresentados às idéias musicais na sua forma mais explícita e intencional. Podemos não saber qual a intenção do autor da obra, mas não teremos dúvidas sobre o que ele nos disse objetivamente.

E quanto mais a gente se expõe a esse tipo de informação, mais a linguagem vai entrando em nós (ou seriamos nós que vamos entrando na linguagem?). Cada vez mais, aquilo que lemos e ouvimos se torna familiar.

Nesse momento, perceber nada mais é do que uma reversão do processo, de olhar para aquilo que já sabemos.

Anúncios