Precisamos falar sobre o funk

A última polêmica das redes sociais é sobre se a Valesca Popozuda é uma pensadora contemporânea e se o funk é música.

Papo vai, papo vem (o mesmo papo de uns quinze ou vinte anos atrás, diga-se de passagem), alguém fala que o rock falar de putaria e drogas pode, mas se o funk o fizer, é porque o funk não é cultura nem de longe.

O rock já foi subversivo, por propor uma estética que faz do ruído e da distorção (sons considerados tradicionalmente indesejáveis passaram a fazer parte da base da sonoridade do estilo) e falar de assuntos espinhosos e subversivos.

“I wanna hold your hand” pode parecer mais boba hoje do que uma música do Michel Teló (menos chata, talvez), mas para a época foi algo bastante chocante. Aliás, se você pegar a primeira fase dos Beatles, é tão mela-cueca quanto o pagode dos anos 90, ao menos na intenção.

Sob esse aspecto, é hipocrisia um roqueiro usar como argumentos o “barulho” do funk ou suas letras que falem de putaria. O mesmo vale pra um sambista (já foi crime portar ou tocar violão no Rio de Janeiro), Bossa Novista (Ditadura, alguém?), Clássico (Shostakovich fez o som da Revolução Russa) ou qualquer outro estilo que JÁ SOFREU PRECONCEITO pelo tipo de som que levava. Ou é falta de memória, ou é falta de capacidade de se colocar no lugar dos outros.

Ok, o funk já teve dias piores, de apologia ao crime e glorificação de traficantes (proibidão dos anos 90-00, alguém lembra?) mas hoje trata de assuntos menos indigestos e mais importantes, como liberdade sexual e feminismo. Aliás, a bola do feminismo tava lá quicando sozinha na área e ninguém chutava. Foi preciso um bando de funkeiras assumir essa tarefa.

Tinha também a velha bola do preconceito de classe, que já foi do Samba, mas hoje tá mais na mão dos rappers do que dos funkeiros. Aliás, 90% das críticas que o funk recebe são apenas preconceito de classe destilado.

Mas, por outro lado…

A música que se faz hoje (hip hop, rap, funk e parte do pop que deriva desses estilos, em específico) ao propor um determinado tipo de sonoridade que não é cantada e nem harmonizada, baniu alguns pilares importantes da música, que fazem toda a diferença em termos de expressividade.

Eu não sei se isso é bom. E quem faz funk deveria se ligar nisso.

Chegamos ao ponto em que discutir música virou, basicamente, discutir letras. É o que estamos fazendo aqui agora: discutindo textos de letras e frases faladas, porque não há muito mais o que se falar em termos de sonoridade, harmonias e melodias.

Não há mais levadas diferentes. Não há mais solos. Não há mais metaleira. Nem dinâmicas, nem nuances, nada. Só uma base sampleada tocada no volume máximo da caixa, versos falados e muito, muito apelo estético visual.

Essa é a diferença brutal do funk pro jazz, pro rock, pro R&B, pro country e etc. Repare: o funk não tem instrumentistas consagrados. Nem temas. Nem solos clássicos.

Se você acha que isso não tem implicações e que é tudo a mesma coisa, que não há diferença alguma, eu lamento lhe informar: você não entende e nem nunca entendeu nada música.

Ok, isso não é culpa do funk. Na real, é algo mais sintomático do mundo no qual a gente vive hoje, e por acaso fica mais evidente no funk do que em qualquer outro meio. Mas os MCs, se não estão ligados nisso, deveriam estar.

Essencialmente, as ferramentas pra fazer funk são as mesmas desde a década de 80, barateada ao longo do tempo pela tecnologia. Se bobear, os caras usam os MESMOS SAMPLERS de vinte ou trinta anos atrás. E depois desse tempo, ainda não tivemos o Dark Side of the Moon funkeiro, ou o equivalente funkeiro da segunda fase dos Beatles, com arranjos instrumentais fodões ou uma pegada mais introspectiva, ou algo completamente diferente em termos de sonoridade.

Pode ser que seja porque nenhum produtor de um estilo mais tradicional não tenha estendido a mão e ajudado um MC a soar diferente, mas também pode ser que o MC ainda não tenha se tocado de que está numa posição de vanguarda.

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