Cinco coisas sobre leitura

por Rafa

Há mais ou menos um ano, comecei a estudar com um método de leitura e técnica bem bom.

Na época, tinha me proposto a terminar um volume por ano. São três tomos compilados, o que daria algo em torno de três anos, do mais fácil ao mais avançado.

O tempo passou, e eu estou ainda na metade do primeiro livro. Tudo porque eu resolvi não sair correndo pra terminar lições no meio das mudanças da minha vida que aconteceram de lá pra cá. Decidi que devagar seria melhor, e que eu me beneficiaria mais do método aproveitando-o aos poucos, com toda a calma do mundo.

E foi exatamente isso que aconteceu. 🙂

Dando tempo ao tempo e vendo cada lição com calma, consegui esmiuçar os detalhes de cada exercício e ver onde que cada um me derrubava.  Fora que as revisões constantes de material me ajudaram a criar uma compreensão mais profunda sobre leitura e técnica.

Eis o que eu descobri:

1 – Leitura serve pra tirar os olhos da mão esquerda

Fato: quase todo guitarrista não lê música,

Normalmente, o sujeito lê cifras mais simples, quando lê. E isso acarreta uma série de limitações.

Mas tem uma limitação bem específica que é imperceptível ao guitarrista que não lê: ele é incapaz de tocar sem contato visual com a escala. Ele tem que olhar o tempo todo pra escala do instrumento e imaginar as fôrmas todas dos acordes e das escalas.

O guitarrista que não lê é incapaz de perceber isso, de tão imerso que está em tocar olhando pro braço do instrumento.

Olhar pra escala, por si só, não é ruim. O problema é quando a visualização de escalas e harpejos depende dos olhos, bem mais do que da memória muscular. É isso que nos faz catar milho.

Tocar sem ler 100% do tempo vicia o guitarrista, a ponto dele não conseguir criar independência daquilo que está no campo visual. Nesse aspecto, a leitura serve para te deixar mais eficiente

Ao cortarmos fora o input visual, liberamos o campo visual e naturalmente focamos apenas com a memória muscular. Como não precisamos mais processar informação visual no braço da escala, ganhamos velocidade, simplesmente porque tornamos o processo de tocar mais simples.

Fica parecido com jogar videogame: ninguém para no meio do jogo pra olhar pra qual dedo que deve ir em cada botão.

2 – Existem vários tipos de leitura,  e cada um funciona melhor de um jeito

Li bastante coisa de lá pra ca, e senti que determinadas coisas funcionam melhor de um jeito e outras de outros.

Decidi separar minhas leituras em três categorias:

  • Técnicas (exercícios que envolvam ritmos, escalas, harpejos, acordes, etc.);
  • Leitura à primeira vista (exercícios de melodias e harmonias que eu, necessariamente, não posso saber);
  • Músicas;

O primeiro tipo precisa estar debaixo do dedo a qualquer custo, e para isso eu sempre faço o estudo com metrônomo, buscando sempre a forma mais precisa, rápida, limpa e automática (quase inconsciente) de tocar.
O segundo tipo, por definição, não pode nunca estar debaixo do dedo (afinal, se você conhece a música, ela não é uma leitura à primeira vista). Exercícios desse tipo eu sempre faço sem metrônomo, me dando a oportunidade de tentar soar mais musical e errando de vez em quando. E eu nunca repito esses exercícios por pelo menos dois dias, para garantir que eles continuem sem memorização.
O terceiro tipo eu misturo um pouco: estudo com metrônomo se sentir que o resultado está meio zoado, e sem metrônomo quando eu sinto que posso soar musical de forma mais livre.

3 – Pra que serve o estudo em andamento lento

Todo professor sempre vai te dizer que é preciso estudar num andamento lento antes de partir para os andamentos mais rápidos.

Mas, ao menos pra mim, nenhum nunca explicou o porquê desta lei. Que diabos de correlação existe entre o aprendizado e o andamento que se deseja tocar. Era quase um tabu – quase, porque eu saquei algumas vantagens de estudar devagar.

O que acontece é que os andamentos lentos se prestam a duas coisas:

  • Desenvolver o tônus muscular das mãos e criar resiliência: acredite, é preciso um bocado de força para sustentar certas posições das mãos. Quando tocamos rápido, as mãos trocam de posição sem que haja tempo para se cansarem de uma posição mais incômoda (pestana, lembra dela?), voltando rapidamente a uma posição mais neutra e relaxada. É justamente nos tempos mais lentos que desenvolvemos nossa força.
  • Abaixar a altura dos dedos em relação à escala: um dos vícios de tocar rápido é que exageramos nos movimentos desnecessários. Afastamos demais os dedos da escala sem necessidade ao exagerarmos os movimentos.
    Tocar lento (e calmo) ajuda a economizar movimento e energia

4 – E pra que serve o estudo em andamento rápido

Para tocar rápido, precisamos de, basicamente, escalas, harpejos e músicas debaixo do dedo e uma dose generosa de relaxamento. Exatamente como no videogame.
Da mesma forma como o andamento lento treina a resiliência muscular, o andamento mais rápido treina a nossa capacidade de tocar de forma ágil e relaxada, já que é impossível tocar rápido e tenso.
Na real, relaxamento é sempre importante. Mas é muito mais fácil relaxar em andamentos mais lentos, já que há uma tendência natural a colocar menos tensão nos músculos.

5 – Ler sem ler, olhar sem olhar

Depois de ler muito uma determinada partitura, ela vira meio que uma extensão sua, da mesma forma que o instrumento (aliás, a partitura é tão instrumento quanto a guitarra). E da mesma forma que passamos a gastar menos energia focando no instrumento, economizamos também com o papel à nossa frente.

Chegamos ao ponto de poder abandonar totalmente a partitura em prol da memorização, ou continuar com ela ali, na nossa frente, como uma guia, olhando de vez em quando na hora que for preciso. E só.

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