Não há regras

por Rafa

Uma vez, numa aula de harmonia da faculdade, nosso professor falou da regra de ouro da composição.

Suas sábias palavras eram:

“Depois de um acorde, pode vir qualquer outro acorde.”

A gente ficou rindo por meia hora desta frase. Passamos sabe-se lá quantos semestres aprendendo progressões comuns em harmonia para ouvir, no final de tudo, que depois de uma coisa pode vir qualquer outra coisa.

Parece zuera, mas a frase é, entretanto, de uma sabedoria monumental. Ela nos lembra de um tipo de óbvio que a gente vive esquecendo, de tão na cara que ele está.

O fato, a verdade universal irrefutável, é que não há regras em arte.

Isso para textos, artes plásticas, design, games, música ou qualquer outra coisa que envolva linguagem e estética. Virtualmente, tudo é possível. Tá tudo liberado.

Não há regras. O que há, no máximo são um monte de possibilidades, técnicas e ferramentas a serem utilizadas. Mas essas três, por si só, não garantem a qualidade e a expressividade de um trabalho.

Sabe aquela canção com pegada de jazz, cheias de tensões na melodia e acordes de quarta e sétima? Pois é, estes elementos podem perfeitamente fazer a canção soar sofisticada e classuda, mas também podem soar datados e sem graça.

E aquele rock meio gritado, cheio de riffs e distorção? É a receita da cacofonia, mas também é a receita daqueles hinos que marcam gerações, de “Sgt Peppers ” a “Smells Like Teen Spirit”.

Há, no máximo, uma regra:

http://www.youtube.com/watch?v=OsuAkEOODt4

Pat Pattinson, professor de poética e songwriting da Berklee, nos fala da única regra da arte: a prosódia.

Normalmente, entende-se por prosódia o alinhamento do ritmo musical e do ritmo do texto. Neste caso, a prosódia está correta quando a acentuação das sílabas bate com os acentos do ritmo da música. Quando a acentuação não bate com o ritmo, temos o chamado erro de prosódia.

Manja o “Atirei o Pau no Gato”? Então, o “berrô que o gato deu” (e que deveria ser um “berro”, com o “e” agudo) é um erro de prosódia. É essa a explicação que nove de dez professores de português vai te dar, se você perguntar o que é prosódia.

Só que o Pat vai até as origens da palavra. Citando Aristóteles em sua “Poética”, ele propõe uma prosódia que trate do encaixe de todas as partes da obra entre si, constituindo o todo:

“[…]É necessário, portanto, que os mitos bem compostos não comecem nem terminem ao acaso, mas que se conformem aos mencionados princípios. […] o belo — ser vivente ou o que quer que se componha de partes — não só deve ter essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que não seja qualquer […]”

Prosódia é o que faz com que tudo vire um.

Prosódia é o que dá a liga nos elementos de uma composição. Ela faz com o que um amontoado de linhas se torne uma imagem, ou um amontoado de palavras e ritmos faça algum sentido musical – sentido este que seria impossível de existir nas partes isoladas. É o que dá unidade a uma obra de arte e faz com que nada que esteja ali gratuitamente. Eu diria também que é justamente o que faz com que a arte seja arte.

É por isso que é tão difícil fazer uma boa obra. Não há regras e nem garantias de nada. Nossos referenciais ajudam só até certo ponto, e depois é tudo uma questão de como que se arruma a casa. É por isso que não adianta seguir fôrmas ou padrões pré-definidos e esperar que isso resulte em algo que faça sentido.

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