Guitarrismos

Mês: março, 2014

Cinco coisas sobre leitura

Há mais ou menos um ano, comecei a estudar com um método de leitura e técnica bem bom.

Na época, tinha me proposto a terminar um volume por ano. São três tomos compilados, o que daria algo em torno de três anos, do mais fácil ao mais avançado.

O tempo passou, e eu estou ainda na metade do primeiro livro. Tudo porque eu resolvi não sair correndo pra terminar lições no meio das mudanças da minha vida que aconteceram de lá pra cá. Decidi que devagar seria melhor, e que eu me beneficiaria mais do método aproveitando-o aos poucos, com toda a calma do mundo.

E foi exatamente isso que aconteceu. 🙂

Dando tempo ao tempo e vendo cada lição com calma, consegui esmiuçar os detalhes de cada exercício e ver onde que cada um me derrubava.  Fora que as revisões constantes de material me ajudaram a criar uma compreensão mais profunda sobre leitura e técnica.

Eis o que eu descobri:

1 – Leitura serve pra tirar os olhos da mão esquerda

Fato: quase todo guitarrista não lê música,

Normalmente, o sujeito lê cifras mais simples, quando lê. E isso acarreta uma série de limitações.

Mas tem uma limitação bem específica que é imperceptível ao guitarrista que não lê: ele é incapaz de tocar sem contato visual com a escala. Ele tem que olhar o tempo todo pra escala do instrumento e imaginar as fôrmas todas dos acordes e das escalas.

O guitarrista que não lê é incapaz de perceber isso, de tão imerso que está em tocar olhando pro braço do instrumento.

Olhar pra escala, por si só, não é ruim. O problema é quando a visualização de escalas e harpejos depende dos olhos, bem mais do que da memória muscular. É isso que nos faz catar milho.

Tocar sem ler 100% do tempo vicia o guitarrista, a ponto dele não conseguir criar independência daquilo que está no campo visual. Nesse aspecto, a leitura serve para te deixar mais eficiente

Ao cortarmos fora o input visual, liberamos o campo visual e naturalmente focamos apenas com a memória muscular. Como não precisamos mais processar informação visual no braço da escala, ganhamos velocidade, simplesmente porque tornamos o processo de tocar mais simples.

Fica parecido com jogar videogame: ninguém para no meio do jogo pra olhar pra qual dedo que deve ir em cada botão.

2 – Existem vários tipos de leitura,  e cada um funciona melhor de um jeito

Li bastante coisa de lá pra ca, e senti que determinadas coisas funcionam melhor de um jeito e outras de outros.

Decidi separar minhas leituras em três categorias:

  • Técnicas (exercícios que envolvam ritmos, escalas, harpejos, acordes, etc.);
  • Leitura à primeira vista (exercícios de melodias e harmonias que eu, necessariamente, não posso saber);
  • Músicas;

O primeiro tipo precisa estar debaixo do dedo a qualquer custo, e para isso eu sempre faço o estudo com metrônomo, buscando sempre a forma mais precisa, rápida, limpa e automática (quase inconsciente) de tocar.
O segundo tipo, por definição, não pode nunca estar debaixo do dedo (afinal, se você conhece a música, ela não é uma leitura à primeira vista). Exercícios desse tipo eu sempre faço sem metrônomo, me dando a oportunidade de tentar soar mais musical e errando de vez em quando. E eu nunca repito esses exercícios por pelo menos dois dias, para garantir que eles continuem sem memorização.
O terceiro tipo eu misturo um pouco: estudo com metrônomo se sentir que o resultado está meio zoado, e sem metrônomo quando eu sinto que posso soar musical de forma mais livre.

3 – Pra que serve o estudo em andamento lento

Todo professor sempre vai te dizer que é preciso estudar num andamento lento antes de partir para os andamentos mais rápidos.

Mas, ao menos pra mim, nenhum nunca explicou o porquê desta lei. Que diabos de correlação existe entre o aprendizado e o andamento que se deseja tocar. Era quase um tabu – quase, porque eu saquei algumas vantagens de estudar devagar.

O que acontece é que os andamentos lentos se prestam a duas coisas:

  • Desenvolver o tônus muscular das mãos e criar resiliência: acredite, é preciso um bocado de força para sustentar certas posições das mãos. Quando tocamos rápido, as mãos trocam de posição sem que haja tempo para se cansarem de uma posição mais incômoda (pestana, lembra dela?), voltando rapidamente a uma posição mais neutra e relaxada. É justamente nos tempos mais lentos que desenvolvemos nossa força.
  • Abaixar a altura dos dedos em relação à escala: um dos vícios de tocar rápido é que exageramos nos movimentos desnecessários. Afastamos demais os dedos da escala sem necessidade ao exagerarmos os movimentos.
    Tocar lento (e calmo) ajuda a economizar movimento e energia

4 – E pra que serve o estudo em andamento rápido

Para tocar rápido, precisamos de, basicamente, escalas, harpejos e músicas debaixo do dedo e uma dose generosa de relaxamento. Exatamente como no videogame.
Da mesma forma como o andamento lento treina a resiliência muscular, o andamento mais rápido treina a nossa capacidade de tocar de forma ágil e relaxada, já que é impossível tocar rápido e tenso.
Na real, relaxamento é sempre importante. Mas é muito mais fácil relaxar em andamentos mais lentos, já que há uma tendência natural a colocar menos tensão nos músculos.

5 – Ler sem ler, olhar sem olhar

Depois de ler muito uma determinada partitura, ela vira meio que uma extensão sua, da mesma forma que o instrumento (aliás, a partitura é tão instrumento quanto a guitarra). E da mesma forma que passamos a gastar menos energia focando no instrumento, economizamos também com o papel à nossa frente.

Chegamos ao ponto de poder abandonar totalmente a partitura em prol da memorização, ou continuar com ela ali, na nossa frente, como uma guia, olhando de vez em quando na hora que for preciso. E só.

Escrevendo coisas novas e arranjando coisas velhas

Tava aqui rabiscando uns versos e me lembrei das minhas aulas de arranjo.

Uma das lições que o Pat ensinou sobre colocação de frases é que faz diferença coloca-las nos tempos fortes ou fracos. Estas posições geram efeitos diferentes na percepção da música.

Frases iniciadas em tempos fortes tendem a ser mais estáveis e assertivas que frases em tempos fracos. Estas últimas soam mais instáveis e dramáticas.

(você pode discordar do Pat, mas vamos tomar esse argumento como verdade por um instante)

Isso meio que complica as coisas na hora de escrever uma música nova ou um arranjo novo, pois a tendência é sempre escolher o que vai aumentar o impacto da frase na obra. Basicamente, temos que evitar fazer escolhas erradas.

MAS

Quando se arranja pra uma peça já conhecida, a liberdade de mudar a colocação das frases aumenta: justamente por se tratar de uma peça batida, que todo mundo já cansou de escutar, mudar a colocação das frases acaba criando um efeito de suspensão de expectativa nos ouvintes: o ouvinte espera ouvir de um jeito e ouve de outro.

Harmonia Lingüística

Uma piada recorrente nas aulas de harmonia e escrita musical é a terça das escalas e dos acordes.

Todo mundo que fez aula de leitura e escrita musical básica já ouviu aquela frase de que o acorde com terça maior é feliz e o acorde com terça menor é mais triste.

(isso quando o/a professor(a) em questão não faz uma cara feia quando toca o acorde menor e uma cara feliz quando toca o maior)

Depois de algumas risadas, o professor ou a professora vai lá e explica que não é bem assim: o som de terça maior é maior e o de menor é menor. Se aquilo desperta uma emoção ou outra, são outros quinhentos.

E, na real, são outros quinhentos mesmo: não cabe estudar esse tipo de correlação numa aula cujo propósito é ensinar a ouvir e escrever.

Pois bem… eis que em uma das lições do Pat Pattinson, ele fala justamente de harmonia linguística. Especificamente, ele fala das alterações de tom de voz utilizadas para criar expressão e significado. Por exemplo, aquela ligeira subida de tom ao final das perguntas, que serve para que o interlocutor perceba que a pergunta é mesmo uma pergunta e não uma afirmação.

Em um dos vídeos, ele fala sobre como utilizamos diferentes alturas para expressar emoções. Segundo o Pat, por exemplo, nós reclamamos da vida e pentelhamos os outros alterando o tom de voz em terças menores, e usamos as terças maiores para expressar felicidade. Manifestamos nossa angústia e nossa ansiedade em quartas, e nossa agressividade em quintas.

E faz todo sentido do mundo: determinadas expressões, por si só, podem denotar uma série de coisas. É justamente no tom de voz que o significado correto é construído.

Isso contradiz muita coisa ensinada em aulas de harmonia e escrita musical. Quero muito ler algum estudo sério desse assunto.

Não há regras

Uma vez, numa aula de harmonia da faculdade, nosso professor falou da regra de ouro da composição.

Suas sábias palavras eram:

“Depois de um acorde, pode vir qualquer outro acorde.”

A gente ficou rindo por meia hora desta frase. Passamos sabe-se lá quantos semestres aprendendo progressões comuns em harmonia para ouvir, no final de tudo, que depois de uma coisa pode vir qualquer outra coisa.

Parece zuera, mas a frase é, entretanto, de uma sabedoria monumental. Ela nos lembra de um tipo de óbvio que a gente vive esquecendo, de tão na cara que ele está.

O fato, a verdade universal irrefutável, é que não há regras em arte.

Isso para textos, artes plásticas, design, games, música ou qualquer outra coisa que envolva linguagem e estética. Virtualmente, tudo é possível. Tá tudo liberado.

Não há regras. O que há, no máximo são um monte de possibilidades, técnicas e ferramentas a serem utilizadas. Mas essas três, por si só, não garantem a qualidade e a expressividade de um trabalho.

Sabe aquela canção com pegada de jazz, cheias de tensões na melodia e acordes de quarta e sétima? Pois é, estes elementos podem perfeitamente fazer a canção soar sofisticada e classuda, mas também podem soar datados e sem graça.

E aquele rock meio gritado, cheio de riffs e distorção? É a receita da cacofonia, mas também é a receita daqueles hinos que marcam gerações, de “Sgt Peppers ” a “Smells Like Teen Spirit”.

Há, no máximo, uma regra:

http://www.youtube.com/watch?v=OsuAkEOODt4

Pat Pattinson, professor de poética e songwriting da Berklee, nos fala da única regra da arte: a prosódia.

Normalmente, entende-se por prosódia o alinhamento do ritmo musical e do ritmo do texto. Neste caso, a prosódia está correta quando a acentuação das sílabas bate com os acentos do ritmo da música. Quando a acentuação não bate com o ritmo, temos o chamado erro de prosódia.

Manja o “Atirei o Pau no Gato”? Então, o “berrô que o gato deu” (e que deveria ser um “berro”, com o “e” agudo) é um erro de prosódia. É essa a explicação que nove de dez professores de português vai te dar, se você perguntar o que é prosódia.

Só que o Pat vai até as origens da palavra. Citando Aristóteles em sua “Poética”, ele propõe uma prosódia que trate do encaixe de todas as partes da obra entre si, constituindo o todo:

“[…]É necessário, portanto, que os mitos bem compostos não comecem nem terminem ao acaso, mas que se conformem aos mencionados princípios. […] o belo — ser vivente ou o que quer que se componha de partes — não só deve ter essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que não seja qualquer […]”

Prosódia é o que faz com que tudo vire um.

Prosódia é o que dá a liga nos elementos de uma composição. Ela faz com o que um amontoado de linhas se torne uma imagem, ou um amontoado de palavras e ritmos faça algum sentido musical – sentido este que seria impossível de existir nas partes isoladas. É o que dá unidade a uma obra de arte e faz com que nada que esteja ali gratuitamente. Eu diria também que é justamente o que faz com que a arte seja arte.

É por isso que é tão difícil fazer uma boa obra. Não há regras e nem garantias de nada. Nossos referenciais ajudam só até certo ponto, e depois é tudo uma questão de como que se arruma a casa. É por isso que não adianta seguir fôrmas ou padrões pré-definidos e esperar que isso resulte em algo que faça sentido.