Romeu e Julieta

por Rafa

Imagine que eu te convie para assistir um filme qualquer que você não conheça. Você sabe o nome do filme e, no máximo, quem é o diretor ou o nome do ator que faz o protagonista. Só.

Imagine que você seja daquele tipo de pessoa que não ligue pra spoiler. Seja por curiosidade ou por não querer perder tempo ou dinheiro assistindo um filme que você possa achar ruim, você vai e me pergunta qual é a do filme.

Digamos que eu diga que é tipo “Romeu e Julieta”.

Pronto: agora você sabe mais ou menos como que é a trama: um casal apaixonado que não pode ficar junto por uma série de motivos e luta contra isso de todas as formas possíveis. Se o filme for mais pro lado do drama, pode até haver alguma chance da galera terminar bem ou não tão mal no final da história. Mas se o filme for pro lado da tragédia, bingo: vai todo mundo morrer e não vai ter final feliz.

O ponto é: quando eu te digo “Romeu e Julieta” (e assumindo-se que você tenha um mínimo de cultura ocidental básica) vai saber mais ou menos o que se passa no começo, no meio e no final do filme.

Pode ser que o diretor resolva fazer como o Tarantino e contar a história em pedaços, começando pelo final e indo depois pelo meio, para voltar para o final e mostrar o começo só no final. Pode ser que o diretor resolva colocar um casal de etnias diferentes para, justamente, puxar uma discussão sobre racismo. Pode ser que ele faça como o Michael Bay e resolva que cada morte seja na base de uma explosão gigante.

O ponto é que a espinha dorsal da história não muda, e você já sabe mais ou menos como começa e como termina o filme, e qual o papel de cada personagem na história.

Musica tonal é mais ou menos isso: uma grande história em que todo mundo já sabe o final.

Numa peça tonal clássica (coisa meio rara de ser produzida hoje em dia, tanto no meio erudito quanto no meio pop), em 99% das vezes, a música consiste em tocar melodias no acorde da nota que dá a tonalidade, passar por várias outras e terminar nesse mesmo acorde, fechando o ciclo.

Existem notas e acordes que fazem a música andar. Existem outras que fazem a música parar. Outros parecem que pegam a música e a apontam numa determinada direção. Outros parecem que tiram a música de uma direção na qual ela vinha anteriormente e mandam ela para outro lugar.

Mas o ponto é que, independente do caminho, todas as músicas desse tipo começam e terminam no mesmo lugar, da mesma forma.

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