Sobre cifragem e análise

por Rafa

Numa das palestras em vídeo do curso de composição, num dado momento, o professor falou do acorde napolitano.

Pra quem não conhece, é o acorde que se constrói sobre o segundo grau da escala. Só que, neste caso, a fundamental do acorde está abaixada, junto com o quinto grau. O resultado é a transformação de uma tríade menor em uma tríade maior, com duas notas não diatônicas.

Se estivermos em Dó maior, por exemplo, ao usarmos o acorde napolitano, teríamos um acorde de Db maior, ao invés do clássico Dm. Normalmente, este acorde é encontrado na segunda inversão, com o quarto grau da escala (e terça do acorde) no baixo

Fica assim:


(imagem do http://www.ars-nova.com)

Só que, na hora de cifrar este acorde, o professor usou a letra “N6″ maiúscula (que é a abreviação do acorde napolitano), ao invés de usar o clássico “ii6” (dois em romano minúsculo), ou o ainda mais comum “♭ii6“.

O motivo apresentado é o seguinte: quando falamos de música tonal – especialmente da época de mozart – tudo que acontece deve ser explicado em função da tonalidade, inclusive notas e acordes não diatônicas. E o segundo grau abaixado não faz parte de nenhuma tonalidade, tanto no modo maior quanto no modo menor.

Na real, o “♭ii6” não está errado, mas é uma cifragem que explica o acorde por si mesmo, independentemente do contexto tonal. Por este motivo, é mais comum em cifragens e análises de peças mais contemporâneas.

Se é assim, qual a diferença das duas cifragens, se o acorde é o mesmo?

A diferença está no viés.

Num contexto tonal clássico, de fato, tudo é explicado em função da tonalidade. O termo “função tonal”, que a grosso modo é justamente o papel de cada nota e cada acorde na música, vem daí.

É um viés que funciona bem para explicar o que acontece numa música que tem um contexto tonal forte, mas que talvez não funcione tão bem quando o contexto da música se afasta do tonalismo. E se o que você estiver tocando for qualquer coisa próxima do R&B (blues, rock, jazz, funk (o carioca, inclusive), as chances desse vier não servir são razoavelmente grandes.

A cifragem numérica, por outro lado, não explica contexto algum, embora ela seja um pouco mais clara para entender acordes individualmente. Ainda que determinados acordes e notas possam denunciar possíveis modos e cromatismos, a cifragem numérica nem sempre vai sugerir um contexto maior onde tudo se encaixa.

Moral da história: dá trabalho entender coisas fora do tonalismo.

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