Sobre contextos e sobre o que queremos expressar

por Rafa

Tradicionalmente, no meio musical, quando se fala em música moderna, lembramos de Debussy, Schoemberg, Stockhausen e da música erudita feita no final do século XIX até mais ou menos o meio do século XX.

Não vou entrar numa grande discussão sobre o motivo desta nomenclatura. Resumindo de forma bem grosseira, a música moderna é moderna porque nega a técnica e a estética tonal tradicional e vai em busca de outras sonoridades.

Faz todo sentido do mundo. Mas há um porém. Um porém bem grande e importante.

Em filosofia e história, o termo Moderno denota aquilo que é contemporâneo a idade moderna do mundo ocidental: grandes navegações, descoberta da América, guerras napoleõnicas, impérios europeus, início do pensamento científico, racionalismo, declínio das religiões (tanto como instituição quanto como visão de mundo) e etc. Um universo muito anterior ao sec. XX.

Ora, o pensamento e a estética racional moderna influenciam a prática musical da época. É justamente este racionalismo e esta busca pelo equilíbrio por meio de uma visão e uma técnica baseada em leis universais que cria o tonalismo de Mozart.

Pois é. Mozart era moderno, ainda que clássico.

Tratar a dissonancia como um problema técnico que pode e deve ser resolvido é uma visão moderna. As regras de condução de vozes, que criam uma textura ao mesmo tempo independente e unificada, idem. Composições sem grandes exageros de dinâmica e virtuosismos (marca do romantismo) idem. Ausências de quintas e oitavas paralelas (os power chords da época) idem. As regras para modulação, idem. A própria noção de função tonal vem daí. Por trás de cada regrinha, uma visão de mundo sendo reificada.

Essas regras tonais tão aí até os dias de hoje. A gente costuma tomar várias dessas regras como naturais – e até mesmo obrigatórias – na hora de escrever ou de tentar entender o que acontece numa peça musical. E, de fato, boa parte das vezes é o caso.

Mas não podemos nos esquecer do contexto que as criou e no qual estão inseridas, nem para quais outros contextos foram transpostas ou adaptadas, pois é justamente o que vai nos salvar da confusão quando estivermos diante de uma peça contemporanea – seja ela um quarteto de madeiras ou um improviso de hip hop.

As regras tonais, independentemente de sua estética e da sua ideologia embutida, não são leis naturais universais.

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