Sobre equilíbrio, harmonia e estética.

por Rafa

Uma das coisas mais legais do curso de composiçāo que eu estou fazendo é a revisão de todo conteúdo de harmonia tonal.

Só que nessa de revisar técnica, acabamos revisando estética também, já que a primeira decorre da segunda. E isso é muito bacana, já que normalmente se fala direto nas técnicas sem pararmos para estudar as premissas sob as quais elas são construídas.

Por exemplo, todo mundo que estudou um pouco de música provavelmente já ouviu a máxima “não se faz quintas nem oitavas paralelas”, para depois se perguntar o que diabos os roqueiros e jazzistas estavam fazendo nesses últimos cem anos.

Essa regra foi convencionada mais ou menos lá pelo século XV, numa tentativa de criar uma sonoridade diferente do que era feito na época medieval.

Segundo as (então) novas premissas, a música precisava ser equilibrada e racional, justamente como a época moderna. Para isso, ela deveria ter várias linhas vocais independentes, mas que tivessem uma unidade entre si.

É paradoxal, mas a noção clássica de harmonização vem daí: arrumar as vozes para que elas soem unidas num único todo, sem perder sua independência e individualidade. E isso é comprometido quando  há vozes em paralelo em intervalos de quinta e de oitava: elas se tornam consonantes demais a ponto de perder sua independência.

O movimento independente das vozes gerava dissonâncias, que quer dizer literalmente coisas que não soam juntas. Pelo ideal estético da época, este era um problema a ser resolvido. Sim, o termo “resolução” vem daí.

O tempo passou, as técnicas ficaram, mas nossos valores e premissas estéticas são outros. Hoje em dia a tensão e a dissonãncia tem outro valor (em sentido liteal e figurado).

Nem sempre resolvemos os impasses, deixamdo as coisas em aberto. Fazemos improvisos “outside” indo de forma pwrecisa nas dissonãncias que deveriam ser evitadas. Tocamos com a pressão e o peso de “power chords”, que nada mais são do que quintas e oitavas em paralelo.

Olhamos e nos relacionamos com o mundo de outras formas. E quando o mundo muda, a música também muda, junto com sua estética.

Mas as técnicas, estas ficam. E podem nos dar insights valiosos sobre como era a música e a vida de outras épocas.

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