Guitarrismos

Mês: janeiro, 2014

Focus: o novo livro do Daniel Goleman sobre a lei das dez mil horas

Noventa porcento das pessoas que eu conheço detestam a lei das 10k horas – aqueeeeeela do Prof. Ericsson, na qual ele afirma que o tempo necessário para criar um expert em alguma coisa é de 10 mil horas de prática consciente.

Óbvio, é incrivelmente desencorajante alguém dizer que você vai precisar passar tanto tempo praticando até conseguir fazer alguma coisa bem feita. Ainda mais se você tiver vinte e poucos anos (ou menos) e fizer parte da geração lifehacker.

Eis que outro grande psicólogo acaba de publicar um outro livro sobre o mesmo tema. Nada menos que Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional que também é professor über-foda de Harvard e articulista.

Em seu novo livro, Focus (que recebeu uma resenha bem bacana no Brain Pickings) ele faz um outro estudo em cima do trabalho do Ericsson, destrinchando a lei das 10k horas. O resultado é incrivelmente animador ou desalentador, dependendo do ponto de vista.

Isso porque ele não refuta a tese do Ericsson (na verdade, ele diz que é “half truth”). A cifra continua valendo. Só que ele chama a atenção para outros fatores envolvidos no processo de treinamento. Por exemplo, a necessidade de um professor/coach/mestre/tutor com um olhar crítico sobre a prática. Um outro ponto que ele aborda é dos limites da capacidade de foco e força de vontade, que precisam de descanso regular.

A gente pensa que é acumular horas e pronto. De certa forma, seria até bem fácil se fosse assim.

Ainda não li o livro, mas ele já está na minha fila de leituras.

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Sobre contextos e sobre o que queremos expressar

Tradicionalmente, no meio musical, quando se fala em música moderna, lembramos de Debussy, Schoemberg, Stockhausen e da música erudita feita no final do século XIX até mais ou menos o meio do século XX.

Não vou entrar numa grande discussão sobre o motivo desta nomenclatura. Resumindo de forma bem grosseira, a música moderna é moderna porque nega a técnica e a estética tonal tradicional e vai em busca de outras sonoridades.

Faz todo sentido do mundo. Mas há um porém. Um porém bem grande e importante.

Em filosofia e história, o termo Moderno denota aquilo que é contemporâneo a idade moderna do mundo ocidental: grandes navegações, descoberta da América, guerras napoleõnicas, impérios europeus, início do pensamento científico, racionalismo, declínio das religiões (tanto como instituição quanto como visão de mundo) e etc. Um universo muito anterior ao sec. XX.

Ora, o pensamento e a estética racional moderna influenciam a prática musical da época. É justamente este racionalismo e esta busca pelo equilíbrio por meio de uma visão e uma técnica baseada em leis universais que cria o tonalismo de Mozart.

Pois é. Mozart era moderno, ainda que clássico.

Tratar a dissonancia como um problema técnico que pode e deve ser resolvido é uma visão moderna. As regras de condução de vozes, que criam uma textura ao mesmo tempo independente e unificada, idem. Composições sem grandes exageros de dinâmica e virtuosismos (marca do romantismo) idem. Ausências de quintas e oitavas paralelas (os power chords da época) idem. As regras para modulação, idem. A própria noção de função tonal vem daí. Por trás de cada regrinha, uma visão de mundo sendo reificada.

Essas regras tonais tão aí até os dias de hoje. A gente costuma tomar várias dessas regras como naturais – e até mesmo obrigatórias – na hora de escrever ou de tentar entender o que acontece numa peça musical. E, de fato, boa parte das vezes é o caso.

Mas não podemos nos esquecer do contexto que as criou e no qual estão inseridas, nem para quais outros contextos foram transpostas ou adaptadas, pois é justamente o que vai nos salvar da confusão quando estivermos diante de uma peça contemporanea – seja ela um quarteto de madeiras ou um improviso de hip hop.

As regras tonais, independentemente de sua estética e da sua ideologia embutida, não são leis naturais universais.

Sobre equilíbrio, harmonia e estética.

Uma das coisas mais legais do curso de composiçāo que eu estou fazendo é a revisão de todo conteúdo de harmonia tonal.

Só que nessa de revisar técnica, acabamos revisando estética também, já que a primeira decorre da segunda. E isso é muito bacana, já que normalmente se fala direto nas técnicas sem pararmos para estudar as premissas sob as quais elas são construídas.

Por exemplo, todo mundo que estudou um pouco de música provavelmente já ouviu a máxima “não se faz quintas nem oitavas paralelas”, para depois se perguntar o que diabos os roqueiros e jazzistas estavam fazendo nesses últimos cem anos.

Essa regra foi convencionada mais ou menos lá pelo século XV, numa tentativa de criar uma sonoridade diferente do que era feito na época medieval.

Segundo as (então) novas premissas, a música precisava ser equilibrada e racional, justamente como a época moderna. Para isso, ela deveria ter várias linhas vocais independentes, mas que tivessem uma unidade entre si.

É paradoxal, mas a noção clássica de harmonização vem daí: arrumar as vozes para que elas soem unidas num único todo, sem perder sua independência e individualidade. E isso é comprometido quando  há vozes em paralelo em intervalos de quinta e de oitava: elas se tornam consonantes demais a ponto de perder sua independência.

O movimento independente das vozes gerava dissonâncias, que quer dizer literalmente coisas que não soam juntas. Pelo ideal estético da época, este era um problema a ser resolvido. Sim, o termo “resolução” vem daí.

O tempo passou, as técnicas ficaram, mas nossos valores e premissas estéticas são outros. Hoje em dia a tensão e a dissonãncia tem outro valor (em sentido liteal e figurado).

Nem sempre resolvemos os impasses, deixamdo as coisas em aberto. Fazemos improvisos “outside” indo de forma pwrecisa nas dissonãncias que deveriam ser evitadas. Tocamos com a pressão e o peso de “power chords”, que nada mais são do que quintas e oitavas em paralelo.

Olhamos e nos relacionamos com o mundo de outras formas. E quando o mundo muda, a música também muda, junto com sua estética.

Mas as técnicas, estas ficam. E podem nos dar insights valiosos sobre como era a música e a vida de outras épocas.

O Gmail das partituras

Hoje fui apresentado ao Noteflight, um aplicativo de armazenamento e editoração de partituras gratuito na nuvem.

Você vai lá, cria sua conta de grátis (ou assinando pelo acesso a alguns benefícios a mais) e tem à disposição uma interface bem honesta de editoração de partitura,  com teclado virtual e tudo mais.

Ainda não testei todos os recursos do aplicativo, mas pelo que eu andei vendo, ė possível escrever tablaturas, partituras para violão e outras coisas mais complexas e específicas.

Só que o mais legal é que o aplicativo permite compartilhar e pegar emprestado partituras de outros usuários. Acaba que o aplicativo facilita muito a vida de professores e alunos.

O Noteflight roda em navegadores comuns e tem aplicativo pra espertofones e tablets. Não é um Sibelius, mas quebra um galho.

Dois cursos gratuitos da Berklee no Coursera

A quem interessar possa:

Dia 27 de janeiro deste ano de 2014 serão reabertos dois fodões da Berklee oferecidos pelo Coursera.

O Curso de Improvisação em Jazz é oferecido pelo lendário vibrafonista Gary Burton, um dos maiores improvisadores de jazz vivos.

Recomendo do fundo do coração para quem nunca improvisou ou para quem (assim como eu) está dando os primeiros passos nesse caminho, por tratar de aspectos mais elementares do improviso de forma direta e certeira. Poucas vezes vi alguém explicar de forma tão descomplicada e com tanta propriedade a teoria por trás dos improvisos – e não se enganem, é teoria pra cacete.

Quem é mais experiente também pode se beneficiar, pela chance de revisar o estudo do improviso com um über professor. 

Pré-requisitos: ter uma leitura razoável de cifras e partituras, algum conhecimento de harmonia, formação de acordes e escalas e um computador com microfone para registrar os deveres de casa.

O curso de Songwriting é oferecido pelo Pat Pattinson (professor da Berklee, deu aula para o John Mayer) e trata de como transformar histórias e idéias em música. Nesse curso, o Pat fala sobre as principais ferramentas do cancioneiro e de alguns métodos de trabalho para transformar idéias soltas em obras de arte.

O curso também é útil para quem tiver interesse em melhorar a performance como acompanhador, já que boa parte das ferramentas e técnicas trabalhadas no curso também são úteis para melhorar a compreensão do músico do que está sendo tocado.

Pré-requisitos: nenhum. Qualquer um pode participar, mas saber tocar e cantar um pouco ajuda bastante.

Links úteis ao estudante de música

Galerinha que me acompanha aqui e no Facebook: para começar bem este ano de 2014, seguem alguns links úteis para quem tem interesse em estudar música com mais profundidade.

The Bulletproof Musician – quem me lê no Facebook deve se lembrar de algum post ou link sobre o blog do Dr. Noa Kageyama. Ele é um violoncelista e coach de música especializado em ajudar músicos a lidar com com os aspectos emocionais e psicológicos mais problemáticos da profissão.

Como fazer uma sessão de estudo render  de verdade? Como lidar com críticas? Elas tem utilidade ou não? E no palco? Como fazer quando tudo que foi praticado em casa desaparece no palco? E como manter a sanidade mental diante de todos esses problemas? Como lidar com o tédio de ensaiar repetidas vezes?

Essas e outras perguntas cabulosas são as preferidas do professor Noa. Ele destrincha os assuntos com um texto certeiro e inspirador, bom de ler quando não temos motivação nenhuma pra estudar.

O lado ruim é que é tudo em inglês. O lado bom é que é uma oportunidade ímpar para praticar o inglês. 🙂

Musictheory.net – como o próprio nome diz, este é um site dedicado ao conteúdo de teoria musical. Os assuntos estão separados por lições e cobrem o básico da formação musical: como escrever música, como construir escalas e acordes, figuras rítmicas, etc. Bem geral, serve para qualquer músico de qualquer instrumento.

O site ainda tem uma seção de downloads de aplicativos para fazer exercícios e calculadoras de acordes e escalas.

Coursera – descobri este portal no finalzinho de 2013, quando fiz um curso de história da humanidade. Foi uma das surpresas mais felizes do ano.

O Coursera reúne os melhores cursos do mundo oferecidos pelos melhores professores, tudo à distância e de graça. Os cursos normalmente são oferecidos no formato video aula, com deveres de casa e avaliações, exatamente como uma aula presencial.

Obviamente, este tipo de formato tem vantagens e desvantagens. Nada é perfeito, afinal de contas. Mas eu to muito feliz fazendo os cursos de songwriting e improvisação que a Berklee oferece por lá. 🙂

Mateus Starling – esse é para os guitarristas que ainda não conhecem o trabalho deste músico e educador.

Mateus Starling é um guitarrista carioca especializado em fusion formado pela Berklee. Ele mantém um site pessoal e um canal de vídeos no YouTube onde ele fala sobre música em geral e guitarra em particular. Ainda que as seis cordas sejam o assunto principal, ele fala bastante sobre assuntos importantes para qualquer músico de qualquer instrumento.

Tenho acompanhado o trabalho deste músico e educador na internet e estou bastante impressionado com a seriedade e a qualidade do trabalho dele.

E pra quem quer cair dentro do estudo da guitarra, ele tem várias aulas em vídeo e apostilas à venda.

Por hora é só. Se alguém souber de algum link maneiro, me fala que eu posto aqui.

Feliz 2014 pra todo mundo! 😀