Guitarrismos

Mês: julho, 2013

Como eu conheci o George Martin

Faz uns tres anos que eu tava procurando esse livro do George Martin (o dos Beatles).

Making Music

É uma compilação de textos de algumas lendas da industria fonográfica e da musica pop. Eric Clapton, Paul McCartney, Phil Ramone, Herbie Hancock, Hans Zimmer, Quincy Jones e mais uma galera, falando sobre como escrever, tocar e produzir música.

O livro começa falando das primeiras tecnologias de reprodução e gravação de som do começo do século XX, e vai até mais ou menos até o final da década de 80, quando já existiam os Samplers e mega shows de rock.

É um guia razoável, mas um pouco datado: poucos anos depois da publicação do livro, surge o MP3 e a história da música muda novamente. Mas as boas lições estão todas lá.

É um livro da década de oitenta que já não é reimpresso ha tempos. Por sorte, consegui pagar 10 Obamas comprando um exemplar paperback usado na Amazon.

Por ser raro, era chatinho de encontrar. Eu ficava procurando no google durante horas atrás de um site ou sebo que vendesse essa bodega. E sempre que eu fazia uma busca com o nome do autor, aparecia um tal de “A Game of Thrones”, que também era escrito por um George Martin

E foi assim que eu conheci as cronicas de fogo e gelo =D

Saindo e voltando para dó maior: os caminhos mais óbvios

Dica pra quem tem interesse em começar a estudar improvisação na guitarra:

Comece estudando a escala de Dó maior (escala e acordes derivados) em uma região do braço. Pode escolher qualquer região, mas fique nela. Não siga pelo resto do braço ainda.

Quando já estiver com um domínio razoável sobre essa escala, comece a estudar as escalas de Sol Maior e Fa maior. Elas são as escalas do quarto e quinto e quarto graus de dó, respectivamente, e são as escalas mais parecidas com a de Do maior.

Esses graus (e suas escalas) são importantes porque são os caminhos mais comuns pra modulação. É muito mais comum sair de uma tonalidade X e ir para a tonalidade da sua dominante ou subdominante do que ir para qualquer outra, simplesmente porque elas se parecem muito.

Depois de malhar bem estas as escalas – Dó maior, Fá maior e Sol maior (I, IV e V graus, respectivamente) comece a estudar os três modos da escala de Lá menor, que é o tom relativo a Dó maior. Seu modo natural tem rigorosamente as mesmas notas que dó maior, ou seja, não muda em nada digitação das escalas. Os modos harmônico e melódico tem uma e duas notas diferentes, respectivamente.

Depois de malhar bem essa escala, faça os tons relativos do IV e V graus: se partimos de dó maior, estudaremos as escalas de Ré menor (relativo de Fa maior, escala do IV grau de dó) e Mi menor (relativo de Sol maior, escala do V grau de Dó).

Essas seis escalas tem muitas notas em comum, e são os caminhos mais óbvios para modulações que saem ou que voltam para dó maior, justamente porque são geradas a partir das notas de Dó maior

Ler para não ler no final

Eu tive um professor que dizia que o objetivo final da leitura da partitura é a não-leitura da partitura.

O fato é que ninguém toca lendo algo que nunca leu antes na vida. Das duas, uma: ou a pessoa memoriza e toca a música, ou toca com alguma partitura ou cifra devidamente estudada para dar uma ajudinha.

Quanto mais nos familiarizamos com a peça, menos precisamos da partitura. E se recorremos cada vez menos às indicações escritas, podemos dedicar mais foco aos detalhes da interpretação.

O lado ironico de tudo isso é que sempre precisamos de uma leitura cada vez melhor, ainda que seja para parar de ler o mais rapidamente possível

Duas dicas de livros de harmonia

Uma amiga minha me pediu dicas de livros de harmonia.

Recomendo duas obras:

Harmonia Funcional, do Carlos Almada – na minha humilde opinião, a melhor compilação do assunto disponível no mercado hoje. E em portugues, ainda por cima!

O Almada é muito bom. Explica tudo do jeito certo e com uma linguagem bastante acessível. Tenho o livro de arranjo dele que também é espetacular.

Pode comprar sem medo de ser feliz.

Harmonia, do Arnold Schoemberg – na minha opinião, ele é o ocidental que mais entendeu de música em toda a história.

Ao contrario do que muita gente pode pensar, neste livro ele não fala de pirações d. Ele trata exclusivamente de harmonia tonal que qualquer curso de música deve oferecer. Tem exercícios muito bons e respeita a curva de aprendizagem do aluno.

O único problema do livro – que nem é um problema de verdade – é que o texto dele é muito denso. Além de um tratado de harmonia, é um tratado sobre o pensamento musical ocidental

10 bpm

Hoje eu me propus a fazer um dos experimentos que o Dr. Noa falou em seu blog: tocar no andamento mais lento possível.

Peguei o metrônomo, botei em 10 bpm. O mínimo que o meu app faz. Dez batidas por minuto, uma a cada seis segundos.

Parecem pouco tempo?

Pra mim foi uma eternidade. Pense que cada compasso de um exercício simples em 4/4 dura algo em torno de meio minuto. Com meio minuto de concentração total por compasso, temos num exercício simples de oito compassos durando quase quatro minutos. Se o exercicio for feito integralmente algumas poucas vezes, temos dez, quinze minutos de demanda por foco ininterrupto.

Aliás, deu pra manter o foco relativamente bem. Filme em camera lenta ao vivo e em tempo real, mostrando tudo que eu fazia. Todas as tensões nas mãos, o posicionamento e a altura dos dedos, a precisão da palhetada, se o ataque sai forte ou fraco demais, etc. Tudo que precisa ser limpo fica muito evidente. Talvez por isso não dispersei tanto.

Mas quem disse que eu acertava as notas na cabeça dos tempos? Não acertei nenhuma. Sempre atacava antes ou depois – ou ficava ansioso demais, ou relaxado demais. Fora o cansaço de sustentar o tonus e manter o corpo relaxado nesse andamento. Foi uma experiencia de tempo completamente diferente.

Aumentei o andamento pra 20 ou 30 bpm, e os problemas persistiam. Só voltou a ficar fácil quando botei no bom e velho 60 bpm.

So comecei a acertar um pouco mais depois que comecei a subdividir mentalmente os tempos grandes em menores, e ainda assim errava.

Não tem jeito. Vai demorar até ter noção de como as coisas funcionam em outro tempo.

E quando a teoria musical não tem nada a ver com a prática?

De vez em quando, escuto desabafos de músicos reclamando que o estudo da teoria musical não tem qualquer relação com a vida prática do músico. Que as tríades em posição estreita das aulas de harmonia não tem nada a ver (pelo menos num primeiro momento) com as levadas de rock. Ou então, por que diabos é proibido escrever oitava paralela se no jazz isso acontece o tempo todo.

Sei como é, já estive nessa situação. Entendo sua dor e sou solidário.

Falando grosseiramente, o estudo de teoria musical serve pra duas coisas:

A primeira função da teoria, que na minha opinão a mais importante, é dar ao músico ferramentas para entender o que diabos está acontecendo. É o que vai permitir ao músico olhar pra partitura e ouvir o que está sendo tocado sem ficar pensando “meu deus, o que diabos está acontecendo aqui”.

A segunda função é oferecer bases para uma comunicação comum a músicos de diversos estilos. É como se fosse a “gramática do musiques”.

Assim, o saxofonista de jazz consegue entender e responder ao violinista da orquestra. Assim o guitarrista, aquele que não sabe como se segura uma baqueta ou em que lado vai o prato de condução, pode explicar pro batera quando que ele vai atacar, por exemplo.