Guitarrismos

Mês: junho, 2013

Sobre harmonia, strange loops e coisas que não fazem sentido algum

Dicas pra quem está começando a estudar harmonia (sim inclusive você aí que eu sei que tá estudando campo harmonico pra improvisar) e tá achando tudo muito esotérico e WTF.

1 – FAÇA AULA COM UM BOM PROFESSOR PELAMORDEDEUS. Sério. Se precisar, sei até quem indicar.

2 – As coisas demoram um pouco pra fazer sentido. Isso acontece porque em harmonia, mesmo as coisas mais básicas dependem da compreensão de pontos não tão básicos e nem imediatamente relacionados à harmonia. O problema é que para entender esses pontos, é necessário saber de harmonia básica.

Sim, é uma lógica de tostines. Ou, como diriam os budistas, são realidades coemergentes. Ou, como diriam os matemáticos, um Strange loop. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que:

3 – Parta da premissa que tudo que o professor está falando está certo, mesmo que não esteja claro. Aos poucos as coisas vão fazendo sentido

Resistência

Pequena dica guitarristica que eu acho que pode ser transposta pra qualquer situação:

As coisas no mundo SEMPRE (repito: SEMPRE) seguem o caminho da menor resistência.

Um raio, quando cai, faz aquele enorme arranhão no céu todo retorcido porque é exatamente este caminho onde há menos resistência elétrica. Se cair em linha reta fosse menos resistente, assim ele cairia.

Um rio flue por onde, justamente, há menos retensões.

Isso vale para tudo. Inclusive pra você enquanto estiver estudando.

Ou seja: se uma passagem, solo ou sequencia de acordes está muito difícil, é provável que você não esteja fazendo aquilo da forma mais simples e menos resistente possível. Obviamente, existem outras variáveis em jogo, mas no geral, se algo tá muito difícil é porque, em parte, nós estamos complicando as coisas.

É o que os grandes músicos fazem, e que a gente costuma chamar de “pulo do gato”: o sujeito tem a manha de fazer o negócio de uma forma infinitamente mais fácil, tocando de forma menos resistente.

Como ligar pedais

Artigo muito bacana e bastante didático sobre como ligar pedais em sequencia ou no loop de efeitos do amplificador:

http://www.bruschiamps.com.br/Artigos/20130609/20130609.html

Tipos de pegada da mão esquerda

De maneira geral, existem duas formas de segurar o braço da guitarra:

A primeira é com a mão em forma de pinça, como quem segura um envelope. A gente apoia o polegar atrás do braço e fecha com os dedos em cima. É o que usamos pra fazer uma pestana, que é quando seguramos várias cordas com um único dedo.

A segunda é como quem pega uma maçaneta de porta, segurando a parte de trás do braço com a palma da mão, ao invés do polegar. É o que fazemos quando queremos dar um bend.

Cada uma tem suas vantagens. Dependendo da maneira como seguramos, alguns músculos ficam livres, enquanto que outros ficam presos porque precisam fazer tensão para se apoiar no instrumento

Não há regras e nem limites

Eu digo que a guitarra é o instrumento mais fácil de começar a tocar. Entretanto, me perdoem os demais músicos, é o mais difícil de dominar.

É facil porque basta aprender três ou quatro acordes simples que isso já resolve 40% de todo repertório não-erudito que existe. Já dá pra sair da primeira aula sabendo uma canção para impressionar meninas. Ou meninos.

E é difícil porque não há regras e nem limites para a guitarra. As possibilidades são infinitas.

O instrumento foi inventado entre os anos de 1920 e 1930. A guitarra não tem nem 100 anos de história, mas já tem um repertório maior do que o que foi feito em séculos passados inteiros.

Na música popular a guitarra foi onipresente. Todos os grandes hits que marcaram época tinham uma guitarra no meio. Estilos que às vezes não tinham nada a ver um com o outro. A não ser o power trio guitarra-baixo-bateria.

E as guitarras evoluíram das formas mais diversas, junto com as músicas. Existe guitarra de tudo que é cor, tamanho e construção: corpo sólido, semi sólido, oco, com floyd rose, ponte fixa, seis, sete cordas, etc. Tem guitarra que é feita pra tocar sentado, dedilhada como se fosse uma cítara. Outras já se parecem com bandolins. Outras, harpas. Com afinações e timbres completamente diferentes. Chega a ser bizarro chamar todos esses instrumentos diferentes por um mesmo nome.

Nós guitarristas sofremos um pouco com essa crise de identidade do instrumento. Diferente dos nossos colegas dos naipes de cordas, por exemplo, que quando começam a estudar já tem um caminho muito claro a ser percorrido em sua formação: quartetos de mozart, sinfonias de beethoven, caprichos de paganini, concertos do Vivaldi, etc.

Nós não temos esse currículo unificado. Nem dentro dos próprios estilos temos isso: o bebop que o joão curte é diferente fusion que o pedro adora. E é tudo jazz.

Ainda que a gente tenha bons professores e referências, estamos cada um numa jornada diferente num mundo gigantesco a ser explorado.

Níveis de habilidade

Existem vários tipos de habilidades nessa vida.

Aprender a falar o próprio nome ou apertar o botão da luz são habilidades muito importantes, por mais bobas que possam parecer.

Ambas tem a grande vantagem de serem fáceis de dominar por completo. Eu diria que é preciso apenas alguns minutos de prática para alguém virar um expert nessas habilidades.

Outras habilidades demoram mais tempo para dominar, como o ponto de fazer um arroz maneiro ou como se equilibrar numa bicicleta. Outras, como aprender a dirigir no transito e dominar uma profissão demoram bem mais.

E existem umas poucas outras habilidades que demoram uma vida inteira para dominar, e mesmo assim fica a impressão de que não dominamos por completo, por mais diligente que seja a nossa prática. Tocar um instrumento ou aprender um idioma, por exemplo.

De tudo que podemos fazer, o mais difícil é dominar uma linguagem.