Da difícil arte de encarar as críticas

por Rafa

Ao longo da nossa caminhada, é inevitável que em algum momento sejamos alvo de críticas. Às vezes elas são contundentes, às vezes são brandas e sutis. Às vezes são feitas com a melhor das intenções e em outras são feitas de má fé, unicamente para nos atingir.

Alguém – nós mesmos, inclusive, já que autocrítica também conta – vai olhar para o nosso trabalho e dizer meia dúzia de coisas sobre ele que, provavelmente, não vão nos deixará felizes.

Ou deixará?

Saber lidar com críticas é uma arte dentro da arte. Talvez seja o meio mais comum e imediato de se extrair informações pertinentes sobre o que diabos estamos fazendo e sobre o que podemos fazer para melhorar.

Ignorar críticas costuma ser um sinal de imaturidade, de alguém que está mais preocupado com a proteção do próprio ego do que com o nível do próprio trabalho.

Por outro lado, não podemos aceitar qualquer comentário como uma crítica válida, sob o risco de comprometer o que estamos fazendo por conta de informações imprecisas ou falsas. Principalmente quando vierem sob a forma de crítica positiva, daquelas que dá uma bela massagem no ego.

Olhos do Mestre

O PhD e guru do expertise Dr. K. Anders Ericsson nos fala que uma marca do expert é a capacidade de extrair informação útil e pertinente de qualquer feedback que receba, em qualquer situação. O chamado self-coaching, que é uma forma de prática autodidata.

Basicamente, o expert sabe cavar uma boa crítica no amontoado de informações que ele recebe o tempo todo de todo mundo. Com o olhar treinado, ele é capaz de extrair da opinião leiga uma opinião especializada, pois percebe pequenos pedaços de informação útil num discurso pouco especializado e, a partir destes, consegue reconstruir informações úteis. Da mesma maneira, ele é capaz de ignorar comentarios desonestos feitos com má fé ou críticas que não digam muita coisa, mesmo que ela venha de seus pares igualmente competentes.

Seu olhar perspicaz foi moldado junto com a sua experiencia de trabalho, e é capaz de separar informação do ruído em qualquer circunstancia.

O expert também é emocionalmente seguro. Sua maturidade faz com que ele não se deixe alterar por elogios ou comentários maldosos. Uma habilidade bastante útil, pois além de permitir um olhar mais preciso, é fonte inigualável de paz de espírito.

Ok. Estou longe de ser um mestre. Como proceder?

É difícil extrair informações objetivas pertinentes quando nos deixamos levar pela crítica. Por isso é importante ter algum grau de blindagem e resiliencia emocional.

Em primeiro lugar, é preciso aprender a não colocar o controle remoto dos próprios nervos nas mãos dos outros.

Esta parte é a mais importante do processo. Sem paz de espírito é impossível receber um feedback limpo, pois estaremos ocupado demais massageando ou lambendo as feridas do ego. E o ego importa bem menos que o trabalho.

É preciso se acostumar com a prática de dar a cara à tapa. Fato: críticas vão surgir eventualmente (o tempo todo se for na internet). O seu trabalho vai ser avaliado sob mil critérios diferentes. E o pressuposto básico de qualquer avaliação é que seja feita segundo critérios que raramente escolhemos ou concordamos. Não é fácil, mas ninguém disse que seria fácil.

Em segundo lugar, é preciso entender que a relação sinal/ruído é quase sempre baixa.

Para cada pequeno pedaço de informação relevante temos um monte de ruído: palavras e visões desnecessárias, confusões, flutuações do humor do interlocutor no dia, seus interesses pessoais ao emitir uma avaliação (sim, elogios e críticas são usados como moeda de troca), massagens pro ego, agressões, inveja, admiração e mais um monte de opiniões malucas sobre a mensagem que você quis passar.

Também é possível que a leitura dos outros seja equivocada ou desonesta. Isso significa um esforço extra para tirar informação útil do feedback alheio. Nem sempre as pessoas sabem ou se dão ao trabalho de fazer uma crítica limpa e honesta.

Em terceiro lugar, precisamos colocar o ego no seu devido lugar, para não corrompermos as lentes que usamos para ver as coisas. Se o ruído já começa na leitura que fazemos, a gente fatalmente acaba entendendo o que queremos entender, independentemente do que esteja diante de nós. Acabamos fazendo com o comentario alheio exatamente aquilo que não queríamos que fizessem com o nosso trabalho.

Por último, mas não menos importante (dica do mestre Kenny Werner), precisamos aprender a desatrelar nosso valor enquanto ser humano do trabalho que produzimos, em algum nível, justamente para que não fiquemos mal quando o resultado for aquém das expectativas. Esta prática de desapego é bastante saudável, por nos lembrar que aquilo que fazemos não nos limita e nem nos define por completo. Não precisamos nos martirizar sempre que ficarmos insatisfeitos com nosso próprio desempenho. Alias, essa a sensação de insatisfação é bastante recorrente. Quanto menos pudermos ficar à mercê dela, melhor. Entretanto, isso não significa fazer corpo mole e ser auto indulgente.

Basicamente, colocar o ego no seu lugar e aceitar que nem sempre o trabalho vai sair do jeito que esperamos, e seguir aguentando as porradas.. Não podemos controlar reações alheias ao que produzimos. É difícil, mas ao menos essa parte depende mais de nós do que dos outros.

Treinando o olhar

A segunda parte vai dar mais ou menos trabalho que a primeira, dependendo do grau de resiliência e amadurecimento emocional de quem a pratica.

Primeiro, subir nos ombros de gigantes.

Estudar com calma a vida e a obra dos que vieram antes de nós, para que possamos ampliar nosso leque de referenciais e entender os contextos nos quais foram produzidas. Por tabela, vamos depurando nossos gostos, além de dar chance à sorte de nos permitir topar com alguma coisa que mude nossas vidas.

Pode parecer um conselho barato sobre esta etapa, mas ela é especialmente importante. Justamente porque é etapa que requer mais tempo de foco e esforço deliberado. Dominar bons referenciais não acontece do dia para a noite. É uma tarefa de monge, que não nos sujeita a emoções fortes, como nos momentos em que estamos nos blindando contra criticas. É justamente onde o treino costuma ficar maçante.

Segundo, praticar regularmente com calma e presença de espírito, prestando atenção ao que está sendo feito e confrontando tudo com os referenciais que temos. Aos poucos, vamos disciplinando o olhar junto com todo o resto.

Por último, e não menos importante, agir um pouco como os principiantes, que estão sempre curiosos e atentos a tudo que acontece. Dependendo da situação, precisamos esquecer de tudo que já sabemos e recomeçar da estaca zero, porque as nossas visões de antes (construídas sobre críticas totalmente válidas em outros momentos) já não nos servem mais. Se não temos abertura nesses momentos, já era.

Textos de referência:

The Making of an Expert - K. Anders Ericsson, Michael J. Prietula, and Edward T. Cokely
Effortless Mastery - Kenny Werner
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