Técnica

por Rafa

Acquire only the technique you need, and no more.
Sudo, Philip Toshio – Zen Guitar, p. 49

Tem um capitulo no livro “The Music Lesson”, do Victor Wooten (sim, além de contrabaixista do Béla Fleck e virtuoso alienígena, ele é autor de um puta livro) sobre técnica.

Peço permissão para dar um pequeno spoiler. Se você não quer saber o que acontece no livro, é só pular o parágrafo abaixo. Se quiser ler, é so clicar e arrastar o mouse para o texto aparecer

Então… o livro tem um capítulo sobre técnica. Neste capítulo, o professor leva o jovem Victor Wooten pro mato para fazer uma trilha. Em um determinado momento, eles param pra fazer uma fogueira ao estilo dos índios americanos.

O mestre pega uns galhos e folhas secas, um graveto reto e outro meio curvado. Ele então coloca a ponta do graveto reto em uma fenda do graveto maior e começa a girar um graveto no outro como quem aperta um parafuso, só que bem rápido.

E faz-se o fogo. O aluno pergunta, então, que raio de mágica era aquela.

Mágica

Técnica é um outro nome para mágica. Quem não sabe, acha que é algum tipo de truque misterioso e surreal. Mas é apenas um procedimento para se obter um determinado resultado. Uma técnica pode ser incrivelmente difícil de dominar, mas ela sempre parece trivial quando é dominada.

Pode reparar: todo cara fodão, quando demonstra suas habilidades, o faz de um jeito que faz a tarefa parecer incrivelmente retardada. Só até o momento da gente tentar por nossa própria conta obviamente.

Falsas dicotomias

Não existe muita técnica e nem pouca técnica. O que existe é tecnica necessaria para aquilo que se deseja fazer.

Também não existe dicotomia entre feeling e técnica. Uma coisa não exclui a outra necessariamente. 

Ah, mas o fulaninho de tal é tecnico demais e não tem nenhum feeling”.

O problema nunca é o feeling. Se o problema é o feeling, é porque o problema é você. Mais especificamente, sua percepção.

Nem todo mundo é obrigado a gostar de tudo e a enxergar valor em todas as músicas. Se uma música não te toca e não faz sentido, talvez seja porque ela não sirva para alguém como você.

Por isso que tendemos a construir essa falsa relação de opostos: quando não enxergamos sentido em uma música, tudo que sobra é um amontoado de técnica aplicada de forma arbitrária. 

Na verdade, técnica é cumulativa: quanto melhor o domínio técnico, maiores as chances de da musica ser expressiva de forma precisa. Por isso que nenhum músico uber foda fica muito satisfeito com por muito tempo com a própria técnica. Sempre dá pra aprimorar mais e mais.

 E por chances maiores, entenda-se que técnica não é garantia de boa música. Se fosse, seria moleza criar gênios da música. Nada é garantia de nada nunca.

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