Energia

por Rafa

Anteontem, lá pela hora da novela, eu resolvi pegar a guitarra pra estudar. O dia de trabalho havia sido longo e não tinha começado lá muito bem. Para piorar, eu ainda estava meio zumbi pelo sono trocado das festas de ano novo e o sono da noite anterior havia sido bem ruim.

Resultado: erros que insistiam em se repetir, dificuldade de leitura, mãos trêmulas e sem tônus e um sono que só crescia junto com o andamento lento do exercício. Talvez se tivesse estudado num ritmo mais rápido eu tivesse mais chances de ficar acordado. Com certeza, foi a pior sessão de estudo dos últimos tempos.

Queria tocar umas músicas novas pra namorada e mostra pra ela o que eu tinha aprendido de novidade, mas nem o básico saia direito. A memória das músicas custava a vir.

Ela me falou pra dormir e estudar de manhã, assim que acordasse. E lá fomos dormir.

O resultado do estudo matinal foi sensivelmente melhor. Ainda estava morto de sono, mas a tendência era a dele se dissipar e eu ficar cada vez mais desperto e menos zumbi. E se por um lado o treino da noite anterior tinha se mostrado não muito produtivo, o descanso me ajudou a memorizar o que eu havia feito na noite anterior. É por essas e por outras que eu insisto em estudar em momentos não muito bons.

Este episódio me chamou a atenção para um fato: energia é um recurso limitado, exatamente como a nossa capacidade de foco. Ela oscila, quase sempre alheia ao nosso controle e à nossa vontade.

Nossa energia varia ao longo do dia. Temos um grau específico de disposição de manhã e outro à noite. Disposição essa que também muda dependendo do dia da semana.

Se estamos de barriga vazia somos de um jeito, e se estamos de barriga cheia somos de outro. Também mudamos dependendo daquilo com o que enchemos nossa barriga.

Coisas acontecem o tempo todo em nossas vidas, e isso nos afeta. Virtualmente qualquer coisa à qual estamos sujeito pode modificar nosso ânimo. Uma determinada ligação pela manhã pode matar completamente nossa capacidade de ação ao longo do dia. Uma mensagem à tarde pode ser um bálsamo pra alma.

Isso significa que, ao longo de um período considerável de estudo e prática – uma sessão de uma hora, duas, uma semana, um ano – teremos experimentado níveis diferentes de energia e disposição.

Saber lidar com essas flutuações é muito importante, pois nem sempre temos energia nas horas que nos são mais convenientes. As condições nunca são perfeitas, e se formos esperar por um alinhamento completo de fatores ideais, nós nem vamos começar a nos mexer.

Se qualquer expert precisou de pelo menos 10 mil horas de prática deliberada, com toda certeza elas não foram gastas nos picos de energia e performance. Temos dias bons e ruins, e todo mundo treina em dias bons e ruins.

Como proceder então?

O primeiro passo é aceitar que energia é um recurso limitado. Nem sempre estaremos com o melhor dos ânimos. Isso significa que não há necessidade de se martirizar ou ficar mal por isso. Todo mundo tem dias bons e dias ruins.

Note que isso não é a mesma coisa que praticar de má vontade ou a contragosto. Tem mais a ver com aceitar nossas limitações humanas.

Por um lado. nossos ânimos nos controlam bem mais do que os controlamos. Por outro, temos uma capacidade relativa e limitada de modificar nossos graus de energia e de ânimo.

Se energia é um recurso finito, o ideal é utiliza-la quando está em alta, e poupa-la ou recupera-la na baixa, e ampliá-lo na medida do possível.

Zen em Quadrinhos

Se estiver com fome, coma. Se estiver com sono, durma.

Se for inevitável treinar em horas ruins:

1 – Opte por revisar material, ao invés de tentar algo novo que pode dar mais trabalho e demandar mais atenção.

2 – Estudar em andamento lento dá sono. Tente algo de moderado a rápido

3 – Reconheça que as condições não são as melhores e não seja tão rigoroso em sua autocrítica. Entretanto…;

4 – … Tente levar a sessão de treino até o fim. Parte do estudo consiste em desenvolver a capacidade de agir em condições desfavoráveis.

5 – Café, chocolate e outros estimulantes ajudam no trabalho. Mas não abuse: ficar acordado quimicamente não é bom

6 – Relaxe. Tensões só fazem aumentar o gasto inútil de energia.

7 – Repetindo: relaxe. Tensões só fazem aumentar o gasto inútil de energia.

8 – Ter fontes de inspiração à mão ajuda na hora de trabalhar. É como ter um pequeno bálsamo para a alma, para nos colocar no caminho certo.

Eu gosto muito de ler o Zen Pencils ou o Zen Guitar para me inspirar, ou então ouvir um pouco de música. Qualquer coisa serve, desde que não prenda muito a atenção a ponto de desviar do foco do estudo.

9 – Faça o que tem que fazer e depois pare.

Se as condições forem boas:

1 – Energia é uma benção. Tenha gratidão e respeito pela sua energia. Pode ser que dalí a poucos minutos você já não tenha mais nada para dar.

2 – Não abuse da sua capacidade e nem a subutilize, para não compromete-la. Novamente: respeite sua energia.

3 – Não gaste energia inutilmente. Tenha foco. Quando for praticar, se policie para não gastar energia e tempo com nada que não esteja minimamente relacionado com o estudo.

4 – Bons hábitos são as principais condições para termos ânimo e energia. Na real, é daí que vem a nossa energia. Isso posto, não seja negligente com a alimentação e nem com o descanso. Coma direito quando tiver fome e durma quando tiver sono.

5 – Descansar na hora do estudo é tão ruim quanto estudar na hora do descanso. Novamente: respeite sua energia.

6 – Sempre que for praticar, tente ir um pouco mais além. Se você estuda dez minutos por dia, tente fazer doze ou quinze. Se estuda uma hora, tente fazer uma hora e dez. Aumentar aos poucos a carga de trabalho ajuda a ampliar a energia.

Agora uma última dica: música é um negócio que tem um poder incrível sobre nós. Ela nos afeta e muda nossos ânimos muito facilmente, podendo nos jogar pra cima ou para baixo.

Va com calma e encare o estudo de forma relaxada, devagar, sem neuroses, cobranças e sem tensões desnecessárias. Se você tiver calma e respeito, aos poucos ela será restaurada.

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